Texto: Marcos Anubis
Foto: Ivan Xavier

amanda

Delicadeza, boas letras e sensibilidade. Essas são algumas características das canções da curitibana Amanda Lyra. “Minhas composições são transcrições do meu coração, da minha cabeça, então já tive muita música romântica, de dor ou de revolta. As melodias com certeza vêm da influência dos sons que eu gosto. Já fiz Rock, Blues, Pop e Bossa Nova. Cada som vem de um jeito”, conta Amanda.

Nascida em um ambiente artístico, (sua mãe é a apresentadora Vera Rosa e seu pai é o músico Ivanio Lira), Amanda cresceu cercada de referências musicais. “A minha primeira memória musical remonta aos meus três anos, sentada em cima do amplificador Meteoro do baixo do meu pai e ouvindo ‘Can’t buy me love’, dos Beatles. Toda criança acaba refletindo de alguma forma os trejeitos e gostos dos pais. Sempre digo que sou um espelho dele, então ninguém melhor do que meu pai para conhecer meus gostos e preferências nas músicas. Ele sabe do que vou gostar antes de eu mesma saber”, conta.

Conhecedor dos caminhos artísticos e de suas particularidades, Ivanio é, desde essa época, um dos grandes parceiros e incentivadores da carreira de Amanda. “Eu sempre valorizei músicos virtuosos e com experiência. Já toquei com muita gente, mas como produtor, arranjador, baixista e violonista, ninguém consegue melhor do que ele deixar o som com ‘a minha cara’. Nossos ensaios são pautados por cutucadas e brincadeiras. Somos muito amigos e temos uma liberdade gigante um com o outro. Isso às vezes até assusta os outros músicos. Só sei que rimos muito!”, diz.

Influências

Outros dois fatores que chamam a atenção no trabalho autoral de Amanda Lyra são o seu timbre e a sua forma de cantar. Ambos lembram a cantora, instrumentista e compositora Cassia Eller, falecida em 2001.

Amanda não nega a influência, mas afirma que acima de tudo está a sua personalidade como artista. “Antigamente, meus amigos de escola eram apaixonados por Sandy e Júnior e eu por Cassia Eller, Titãs, Black Sabbath e outras coisas que meu pai ouvia e tocava. Nessa época eu nem pensava em cantar. Meu sonho era ser atriz de teatro e desenhista”, relembra. “Entre as minhas cantoras favoritas, a Cássia sempre esteve presente. Devido ao meu timbre grave, a associação à voz dela e da Ana Carolina me acompanham sempre. Em todos os covers que faço eu não busco imitar as vozes dos artistas consagrados que gravaram a música. Na interpretação no violão também. Eu tenho o meu jeito particular de tocar e de cantar. Mas é sempre uma honra essa comparação com alguém que curto tanto”, analisa.

A ideia é buscar um equilíbrio entre as influências e a sua forma pessoal de cantar e compor. “Eu sinto que sou apenas uma ponte, pois quando componho, as músicas vêm quase prontas. Geralmente em 15 minutos ‘voilá’. As canções que eu fico horas tentando terminar não viram uma música inteira. Devo ter centenas de fragmentos que não consigo terminar”, explica.

A preocupação com as letras

Hoje é muito difícil encontrar um artista que se preocupe com o texto de suas canções. Independentemente do estilo musical, a língua portuguesa e as boas ideias são cada vez mais deixadas de lado. O mercado fonográfico do século 21 acaba “exigindo” que elas sejam trocadas por um refrão grudento e que seja adequado ao formato radiofônico.

Na contramão dessa realidade, as letras das canções de Amanda parecem receber uma atenção especial, pois fogem desse padrão. “Creio que o mercado está entupido de coisas ruins na música, na literatura ou nas redes sociais, e é uma coisa que eu não acompanho. Sempre gostei muito de ler, de me informar e de aprender. Acho que isso traz um vocabulário melhor para qualquer pessoa. Minha maior influência é o meu pai, que eu considero um dos compositores mais inteligentes que ouço. Tanto que, no meu repertório, eu tenho muitas músicas só dele ou que fizemos em parceria”, diz.

Amanda tem um CD lançado. “Amanda Lyra e Os Delyrantes – Acústico Mundo Livre” (2016) foi gravado em 2015 no programa homônimo da Rádio Mundo Livre FM, comandado pela radialista Marielle Loyola. Na gravação, ela foi acompanhada por sua banda, os Delyrantes. “Fui convidada e chamei o pessoal que me acompanhava na época: Cristiano Oliveira, Thiago Fermino, Maurício Negrello, Paulo Gaôna e o Ivanio Lira. Escolhemos músicas do meu pai que já estavam arranjadas e o programa foi reprisado diversas vezes na íntegra. Vimos que tinha coisa boa ali! Mandamos prensar o CD e o resultado está sendo muito positivo”, diz.

A experiência de tocar em um grande palco da música curitibana

No último dia 13 de maio, Amanda abriu o show da banda paulista Ira! no Teatro Positivo. A iniciativa, criada pela produtora Prime, tem colocado vários artistas curitibanos de música autoral em contato com um público maior e mais diversificado. “Todo ano eu busco fazer ao menos um show autoral em teatro, pois acho que nenhum outro palco tem tanta magia. E para mim foi um baita presente tocar no Teatro Positivo e abrir o show do Ira!, que é uma banda que ladeou a minha adolescência. Foi uma honra!”, agradece.

A oportunidade dada pela Prime para que artistas locais mostrem o seu trabalho deve ser elogiada. Afinal, Curitiba sempre foi um cenário complicado para os artistas autorais. Isso não é segredo para ninguém.

Otimista, Amanda acredita que algumas iniciativas vêm contribuindo para uma evolução dessa realidade. “Em relação a sete ou oito anos atrás, eu acho que houve uma melhora absurda, mas ainda há muito a fazer. A ‘Segunda Autoral’ do Bardo Tatára, por exemplo, foi um dos estopins para que eu e inúmeros compositores dessem mais ‘a cara para bater’ e investissem no som autoral”, afirma.

Mostrar os artistas locais para o grande público é essencial para que um cenário seja efetivamente fortalecido na capital paranaense. “Hoje eu ouço muito mais ‘toca uma sua!’ do que ‘Toca Raul!’. Só que ainda não há uma consciência de que tem muita coisa boa aqui. Que se dessem mais estrutura, os artistas locais não perderiam em nada para os nacionais. Sem dúvida, deveria haver mais incentivo à arte local. Existe muito mais qualidade do que rola nas grandes mídias”, afirma.

Trilhando seu caminho ao lado de bons músicos, Amanda vai aos poucos construindo um trabalho marcado pela sensibilidade. “Ainda nesse ano eu quero gravar o meu CD solo, que já está engatilhado. Só adianto que ele terá vários convidados ilustres!”, finaliza.

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