Texto: Marcos Anubis
Fotos: Aline Sales e arquivo pessoal Cannibal

Foto Devotos - Aline Sales (6)

Punk Rock/Hardcore feito com a maior simplicidade e agressividade possíveis, com letras que abordam a realidade social da própria banda e, também, da comunidade onde vivem. Essa foi a linha mestra do trabalho do trio pernambucano Devotos do Ódio desde os primeiros passos do grupo.

Formada em 1988 por Cannibal (baixo e vocal), Neilton (guitarra) e Celo Brown (bateria), a banda continua na ativa. A única mudança foi no nome do grupo que, hoje, é chamado apenas de Devotos. “Fizemos essa mudança por vontade própria. Antes de lançarmos o primeiro disco, a ideia já era tirar a palavra ódio de nossas vidas. Muitas pessoas odiaram (risos), mas como a gente só faz o que nos agrada, tiramos e ficamos satisfeitos”, explica Cannibal.

Em 2018, o grupo está completando 30 anos de estrada, mas ainda mantém o peso e as letras incisivas que sempre fizeram parte da musicalidade da banda. “Costumo dizer que o nosso som nunca mudou porque está no sangue. Criamos uma identidade musical. O Hardcore do Devotos é diferente e isso é massa em um cenário em que a tradição desse estilo é muito parecida. Quem não é bitolado adora e nós também. Você pode mudar seu nome, mas não pode mudar seu caráter!”, diz.

Atualmente, o grupo está finalizando um novo álbum, “O Fim que Nunca Acaba”, que deve ser lançado em setembro. Como cartão de visitas do trabalho, a banda já disponibilizou o clipe da música “Eu o declaro meu inimigo”, primeiro single do CD. O vídeo foi criado em formato de animação gráfica e contou com a ajuda de 127 colaboradores, entre ilustradores, artistas plásticos, designers, animadores e artistas gráficos de todo o Brasil.

A discografia do Devotos ainda conta com os álbuns “Agora tá Valendo” (1997), “Devotos” (2000), “Hora da Batalha” (2003), “Sobras da Batalha” (EP, 2004), “Flores com Espinhos Para o Rei” (2006), “Devotos ao Vivo, 20 anos” (2009) e “Póstumos” (2012).

Devotos 1988

Os primeiros passos em meio ao movimento Manguebeat

O surgimento do Devotos no cenário do Rock brasileiro coincide com a cristalização de um movimento que mudou a música no país. Naquela época, no início dos anos 1990, Pernambuco e o próprio Brasil viviam o auge do movimento Manguebeat.

Apesar de fazer um som bem mais agressivo do que os grupos da turma de Chico Science, o Devotos também se alinhava aos ideais do Manguebeat. “As pessoas confundem muito o movimento Manguebeat com um segmento de ritmos e instrumentos iguais, como o Axé, na Bahia. Na realidade, ele foi um movimento de liberdade de expressão cultural aonde as temáticas eram muito parecidas. Ele sempre falava do cotidiano do nosso estado e os instrumentos percussivos eram o destaque, mas não necessariamente. O obrigatório era a originalidade da sua música. É por isso que a bandas do Alto José do Pinho estavam sempre ao lado dos grupos do movimento Manguebeat”, diz. “Sem falar que o movimento começou nos anos 1990 e o Devotos começou em 1988, então não tínhamos motivo para mudar o nosso som. Essa atitude fez com que nós andássemos dentro do movimento sem usar como base os ritmos regionais. Lembro que, na primeira vez que demos uma entrevista para uma mídia nacional, foi o Chico Science que nos apresentou”, complementa.

A barra da repressão policial e social

No início da trajetória do Devotos, a repressão policial era rotina nos shows da banda e, também, no dia-a-dia dos moradores do Alto José do Pinho. “Todos os finais de semana em que fazíamos um show, quando voltávamos, o ônibus não subia na comunidade. Então, a gente ia andando e quando chegávamos na subida, sempre tinha um carro da polícia. Eles nos paravam, mandavam todo mundo ficar deitado, faziam um monte de perguntas e, depois de toda essa humilhação, mandavam a gente embora. Era sempre a mesma coisa. Sem falar nos shows em que a polícia fazia a gente parar na metade. Devotos é resistência!”, conta.

A música que colocou o Devotos na programação das rádios undergrounds brasileiras foi “Punk Rock Hardcore Alto Zé do Pinho”. A faixa, gravada no primeiro álbum do grupo, “Agora tá Valendo” (1997), era um retrato fiel do way of life de Cannibal e sua comunidade. “Ela foi escrita em 1995, em uma época em que existiam 13 bandas aqui na comunidade e todas interagindo. Éramos muito fortes. Só duas eram de Hardcore, nós e a 3º Mundo. Na minha cabeça, Hardcore não era só um ritmo, mas também um modo de vida. Com certeza, a nossa vida e o nosso cotidiano eram Hardcore. O preconceito e a discriminação faziam parte da nossa vida e ainda fazem. De maneira diferente, mas fazem”, relembra.

Dessa forma, naturalmente, as músicas do Devotos se tornaram uma espécie de crônica musicada da realidade do Alto José do Pinho. “Era importante expressar o inconformismo perante o descaso do governo com a nossa comunidade. O lugar não tinha saneamento, água, segurança e nenhuma política pública. Não tinha como falar de outra coisa na nossa música que não fosse o ódio e a vontade de viver”, diz.

Hoje, três décadas depois, a realidade da comunidade parece ter melhorado em alguns aspectos. “A mudança, depois das bandas, é notória. A Casa Amarela é um bairro da zona norte do Recife e o Alto José do Pinho e outras localidades estão dentro desse bairro. Antes das bandas, o Alto era conhecido pela violência, então ninguém dizia que morava ali porque todos tinham vergonha. As pessoas diziam que moravam em Casa Amarela. A comunidade vivia nos noticiários policiais. Era um local conhecido pela violência e a mídia sensacionalista fazia questão de mostrar as coisas ruins”, conta.

Depois do surgimento do Devotos e das outras bandas que nasceram na comunidade, a sociedade passou a conhecer o local de outra forma. Em vez de violência, o Alto José do Pinho passou a ser sinônimo de cultura. “Quando as bandas surgiram, as mídias começaram a subir na comunidade para falar sobre a cultura que estava rolando. Nessas entrevistas, sempre convidávamos os movimentos do Maracatu e do Afoxé para participar. Então, a sociedade perdeu o preconceito e começou a vir para participar dos shows e das oficinas de percussão que rolam até hoje. Atualmente, os moradores fazem questão de dizer que moram no Alto, ou seja, conseguimos alavancar a auto-estima da comunidade por meio da música”, avalia.

Outro fator que ajudou na conscientização da população foi a rádio comunitária montada dentro da comunidade. A emissora esteve no ar entre 2002 e 2014 e está sendo reativada. Porém, nem tudo são flores na realidade do Alto José do Pinho. “Aquelas 13 bandas não existem mais e não houve uma renovação. Isso é triste, musicalmente falando. Por outro lado, as pessoas estão muito envolvidas em projetos sociais dentro da comunidade. Um deles é o Alto Sustentável, que tem a finalidade de tirar o lixo da rua e, no lugar dele, colocar plantas. Esse projeto é feito por uma nova geração que se inspirou na nossa e isso é uma coisa que me orgulha muito porque a ideia de reivindicar por meio da música é fazer com que quem esteja ouvindo acorde e reivindique também de qualquer maneira”, diz.

Abrindo portas

Fazer música, em qualquer lugar do mundo, atualmente, é uma batalha constante. Afinal, a quantidade de artistas buscando um lugar ao sol é gigantesca e a grande maioria deles acaba ficando pelo caminho. “A diferença é no alcance midiático que existia naquela época em que a tecnologia não era o que é hoje. Só quem viveu aquela época me entende. Em uma grande gravadora, a sua música era conhecida e você circulava muito mais no alternativo. A banda só tocava para quem te conhecia e viajar era uma coisa muito escassa”, compara.

Consciente de que essa realidade dificulta a evolução da cena, Cannibal criou o projeto Jardim Sonante. A ideia é, justamente, apresentar esses artistas para um público maior com uma estrutura técnica de qualidade e um valor acessível. “Eu criei pensando na dificuldade que as bandas autorais encontram para se apresentar em Recife. Os espaços que, em outras épocas eram em maior número, hoje quase não existem. Os bares só querem bandas cover”, explica.

Essa, aliás, é uma realidade que também é vivenciada pela cena curitibana há muitas décadas. No Jardim Sonante, Cannibal conta com o auxílio de  Fabricio Nunes,  Carlos Eduardo, Aline Sales e Vanessa Alcântara. “Não temos ajuda financeira então, dessa forma, tudo é feito com parcerias. No começo, cheguei a pagar som, toldo e lanche do meu próprio bolso, mas agora consegui alguns parceiros. A Positive Produções e Eventos, por exemplo, fornece o toldo, a Companhia Editora de Pernambuco (CEPE) cuida do som e a Torre Malakoff oferece o espaço e os funcionários. É um lugar maravilhoso, no centro da cidade. A entrada é 1kg de alimento que nós doamos a entidades necessitadas. Só o lanche que eu ainda continuo pagando do meu bolso”, explica.

Na programação do Jardim Sonante, que sempre apresenta quatro bandas, Cannibal procura incluir todos os estilos musicais. “Estamos abertos a todos os trabalhos autorais que não têm espaço para sua difusão. É difícil colocar os artistas renomados para se apresentar porque não temos ajuda de custo ou grana para pagar cachê, mas esses artistas nos ajudam muito convidando o público por meio de vídeos. Sei que posso contar com eles e isso já me deixa muito feliz”, finaliza Cannibal.

Além da música, o Devotos também está envolvido em outras formas de expressão artística. Até o dia 26 de agosto, por exemplo, está em cartaz a exposição “A Arte é um manifesto – 30 anos de Devotos”, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), em Recife. A concepção e a curadoria são do guitarrista do trio, Neilton, que também é artista visual.

São 60 peças que retratam as três décadas de história do grupo, entre quadros criados por ele para os projetos gráficos dos CDs e discos do Devotos, backdrops, pôsteres, ingressos e capas de fitas demo. Já no dia 1º de setembro, é a vez de Cannibal lançar o livro “Música Para o Povo Que Não Ouve”, que traz as suas impressões a respeito do mundo por meio de textos produzidos nos últimos 30 anos.

Imerso em um mar cultural, o Devotos continua retratando o mundo de forma crua, sem meias palavras. Ao mesmo tempo, sem esconder a realidade de uma sociedade cada vez mais injusta, Cannibal, Neilton e Celo Brown seguem buscando alternativas que expressem suas ideias e, também, ofereçam oportunidades para outros artistas.