Texto: Marcos Anubis
Fotos: Divulgação, reprodução Facebook TJAMC, Douglas Martins e acervo pessoal Nélio Waldy

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Trabalhar com cultura no Brasil não é nada fácil. Em 2019, por exemplo, livrarias gigantes como a Saraiva enfrentaram inúmeras dificuldades para sobreviver. Porém, mesmo diante desse cenário sombrio, ainda existem pessoas que acreditam na importância dos livros para a construção de uma sociedade melhor. É o caso dos jornalistas Filipe Albuquerque e Mauro Albano, idealizadores da Editora Sapopemba.

A Sapopemba nasceu no dia 27 de julho de 2019 com o lançamento do livro “Barbed Wire Kisses – A Biografia do The Jesus And Mary Chain”, justamente no show do grupo escocês no Tropical Butantã, em São Paulo. “A editora surgiu com a ideia de lançar a biografia do Jesus and Mary Chain em português. Eu já acreditava há alguns anos que havia um espaço no mercado editorial para biografias ou livros de Rock/Pop. Observando a quantidade de livros desse gênero que eram e são lançados sequencialmente, achei que era possível buscar títulos que ainda não foram  lançados no Brasil para traduzir. Como eu sempre gostei de biografias, foi como juntar o útil ao agradável”, explica Filipe.

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Os primeiros passos

Para colocar em prática a criação da Sapopemba, Filipe teve que entrar em contato com a autora do livro e descobrir os caminhos para lançar a biografia no Brasil. “Assim que o livro foi lançado lá fora, eu encomendei um exemplar com uma amiga que estava de viagem marcada para Londres. Quando recebi, comecei a ler e fiz uma entrevista com a Zoë pra publicar em um blog de música que eu editava naquela época, em 2015. Foi uma entrevista com segundas intenções, pois eu queria saber se ela tinha estabelecido contato com alguma editora brasileira e também como foi a preparação do livro em si. Ela disse que não tinha nada acertado para lançar o livro em português, então eu fui atrás do agente literário dela e dois anos depois acertei a compra dos direitos de tradução e publicação no Brasil”, revela.

A escolha do livro de estreia levou em conta as preferências pessoais de Filipe, que é um grande fã do trabalho do Jesus. “É uma banda que eu sempre ouvi desde a infância. Lembro do programa Som Pop, apresentado pelo Kid Vinil na TV Cultura lá na metade dos anos 1980, exibindo o vídeo de ‘Just like honey’. Com os atrasos habituais da época, na qual não havia internet, acho que esse clipe chegou ao Brasil talvez no início de 1986, no ano seguinte ao lançamento do ‘Psychocandy’. Eu tinha 10 anos e não entendia exatamente o que era, mas aquilo me atraiu de algum modo e eu nunca mais parei de seguir a banda. Tenho toda a discografia e fui a três dos quatro shows que eles fizeram no país. Então, eu já conhecia mais ou menos a história deles. Por causa de todos esses fatores, a escolha da biografia deles para iniciar a editora foi bem natural”, diz.

Um mergulho no universo dos irmãos Reid

“Barbed Wire Kisses – A Biografia do The Jesus And Mary Chain” foi escrito pela jornalista inglesa Zoë Howe e a tradução para a versão brasileira do livro ficou a cargo da jornalista Letícia Ferreira. A obra retrata de maneira sensacional a trajetória de Jim e William Reid desde a adolescência dos dois na pequena cidade de East Kilbride, na Escócia, até a rápida ascensão do Jesus ao posto de uma das bandas mais inovadoras do Rock britânico.

Para construir a narrativa do livro, Howe contou com a colaboração de Jim Reid (William preferiu não se envolver), dos ex-integrantes Douglas Hart (baixo) e Bob Gillespie (bateria), do mítico produtor e criador do selo inglês Creation Records, Alan McGee (que descobriu e lançou bandas como o Oasis, o Primal Scream, o Teenage Fanclub e o My Bloody Valentine), e também de outras pessoas que tiveram algum tipo de envolvimento com o grupo.

Com tantas fontes importantes envolvidas, a quantidade de histórias de bastidores que Zoë conseguiu reunir é impressionante. Entre as mais interessantes, e às vezes hilárias, estão as incontáveis brigas entre os irmãos Reid, os shows de 15 minutos que a banda fazia no início da carreira e o amor pelo álcool (que gerou situações impagáveis).

Apesar de todo o entusiasmo pelo lançamento da biografia e da intenção de entregar alguns exemplares para a banda, Filipe não conseguiu entrar em contato com os irmãos Reid. Esse tipo de situação não é nada estranha, afinal, Jim e William nunca foram músicos acessíveis, pois sempre preferiram ficar nas sombras do mainstream. “A gente tentou contato com o escritório da banda antes do lançamento, mas nunca teve retorno. Mesmo no dia do show em São Paulo, não foi possível chegar até eles para entregar uma cópia a cada um dos Reid. Porém, eles sabem da existência da nossa versão em português. Depois do show, um fã que havia comprado o livro com a gente lá mesmo, e que depois a gente ficou sabendo que é daqui de Curitiba, fez plantão na saída do show e conseguiu fazer com que o Jim e o William autografassem o exemplar dele. Foi uma espécie de vitória nossa também”, conta.

A versão brasileira da biografia foi pensada com tanto capricho que o prefácio do livro acabou sendo escrito por Douglas Hart, um dos personagens mais importantes da biografia do Jesus. “A gente tinha procurado alguns jornalistas brasileiros que nós achávamos que tinham condições de fazer um bom prefácio porque conheciam a banda, o cenário no qual que ela surgiu, o universo do Rock inglês dos 1980 e a cultura pop em geral. Todos disseram que não teriam tempo para fazer. Em paralelo, eu estava em contato com os autores das fotografias publicadas no livro original para obter os direitos das imagens e um deles era o Douglas Hart”, conta.

O ex-baixista do Jesus demonstrou interesse imediatamente e fez questão de participar da versão brasileira da biografia. “Ele respondeu que cederia as fotos gratuitamente e que só queria que a gente enviasse uma cópia do livro para ele depois de impresso. Aproveitei e perguntei se ele não toparia escrever o prefácio e ele aceitou, mas pediu um tempo para escrever porque estava envolvido na produção de um longa-metragem. Atualmente, ele é cineasta e diretor de videoclipes. Foi a melhor coisa que aconteceu para a gente. Nem o livro original tem um prefácio assinado por um dos integrantes fundadores da banda”, complementa.

Passados seis meses da criação da Sapopemba, Filipe acredita que a iniciativa de estrear fazendo o lançamento da biografia do Jesus valeu a pena. “Até o momento, ela vem sendo muito bem recebida! Alguns leitores têm entrado em contato com a gente para dizer que não conseguiam mais parar de ler ou que quiseram começar novamente quando terminaram. Soubemos até de alguns músicos de Salvador que, ao lerem o livro, decidiram montar uma banda chamada Os Reids, com as letras escritas pelo baterista e inspiradas em algumas das histórias contadas na biografia. Isso não tem preço!”, finaliza Filipe Albuquerque.

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Revolucionários

O The Jesus And Mary Chain revolucionou o mundo da música na metade dos anos 1980 ao usar a microfonia, chamada de “wall of sound”, como parte das harmonias das músicas. Influenciado por bandas outsiders, como o The Velvet Underground, Jim e William Reid quebraram paradigmas e foram na contramão do que era produzido na época.

A ousadia valeu a pena, pois o álbum de estreia, “Psychocandy” (1985), se tornou uma obra-prima que seria copiada seguidamente por inúmeras bandas nos anos seguintes. O disco era uma mistura de melodias pop simples e com poucos acordes, como “Taste of Cindy” e “You trip me up”,  ao wall of sound ensurdecedor criado por William em “Never understand” e “The living end”.

O segundo álbum, “Darklands” (1987), já trazia um Jesus mais mergulhado na melancolia e nas melodias pop, o que foi novamente uma fuga do lugar comum, pois o grupo de certa forma renegou as microfonias e fez com que a mídia e o público prestassem atenção nas letras das canções dos Reid. Destaque para a belíssima faixa-título e para os clássicos “Happy when it rains” e “April skies”.

Nos anos seguintes, o Jesus continuou inovando ao incorporar a bateria eletrônica primal em “Automatic” (1989) e ao gravar um álbum praticamente acústico, “Stoned & Dethroned” (1994). Após “Munki” (1998), o grupo ficou 19 anos sem lançar material inédito, voltando somente com “Damage and Joy” (2017).

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A mítica passagem do Jesus por Curitiba

Na turnê mundial do terceiro álbum do Jesus, “Automatic” (1989), o grupo passou inclusive por Curitiba com um show no Ginásio do Círculo Militar no dia 3 de julho de 1990. “Foi no dia do meu aniversário! Lembro que o som realmente era muito alto. A iluminação era mínima, com destaque para uma estrela estroboscópica que ficava no meio. Pra mim, foi um enorme presente!”, diz o músico, cantor e compositor Nélio Waldy.

Curitiba, aliás, talvez tenha sido a cidade brasileira que mais recebeu influência do Jesus. Afinal, muitas bandas curitibanas nasceram com a marca da microfonia dos Reid, como o Tods, o C.M.U. Down, o Dive e o Electric Heaven.

Para os fãs que estavam no Círculo, a experiência foi realmente inesquecível porque o som do Jesus ao vivo não se comparava a nada do que era feito na época. “O show foi fantástico! As microfonias da banda eram ensurdecedoras e, por diversas vezes, a cabeça balançava como se o som atingisse o labirinto pela alma! Louco demais! O show foi intenso e eles tocaram quase todas as músicas do ‘Psychocandy’. Na minha opinião, esse é o melhor álbum da banda e um dos mais importantes da história da música, pois é muito diferente de muito que se houve até hoje. A performances dos músicos era alucinante, pois não pararam no palco um segundo, levando a galera a loucura. No final do show, eu fui para trás do palco e consegui um par de baquetas com um roadie da banda, tenho elas até hoje. O interessante é que essas baquetas ainda têm marcas de sangue na empunhadura”, conta o administrador autônomo Joel Zolnier.

Outro grande fã do Jesus em Curitiba teve até a honra de conviver por algumas horas com o Jesus. “Acompanhei a banda desde a chegada no aeroporto. Foi o momento tiete da minha vida. Eu fiz campana até em frente ao hotel ali na Dr. Faivre, onde eles ficaram hospedados. Eu estava com um amigo meu, o Cimo, e nós encontramos os figuras no Mercadorama e ajudamos os Reid a se comunicarem com a caixa que não entendia nada de inglês. No show, eles nos colocaram para dentro e chegamos a beber umas cervejas com os irmãos Reid e o baixista em um dos vestiários do Circulo Militar”, relembra o ex-vocalista do C.M.U. Down, Mauro Sniecikowski.

Nesse curto período, Mauro teve a oportunidade de conhecer um pouco da personalidade do grupo. “Salvo a antipatia do Jim, os demais eram muitos atenciosos. Porém, não adiantou a gente pedir encarecidamente para que eles tocassem a ‘Never understand’, pois parecia que pelo menos naquele momento, eles odiavam a música. O show foi espetacular! Lembro do palco todo preto com uma estrela prateada na parte de trás onde eram projetados vídeos de maneira tão violenta quanto as distorções. A ‘Blues from a gun’ foi o ápice. No fim, o William foi o último a deixar o palco e a guitarra dele ainda ficou soando por alguns minutos de maneira estridente até as luzes acenderem. Foi um espetáculo, de chorar”, complementa.

Com tanta microfonia nas músicas, que era potencializada ainda mais nos shows, é de se admirar que a estrutura do ginásio tenha aguentado sem maiores problemas. “Eu lembro de ficar olhando as armações de vidro do Círculo Militar e imaginar que logo aquilo ia ruir de tanta barulheira. Acho que os caras fizeram milagre no som, por causa da acústica do Círculo”, relembra o músico Ronaldo Nicolaico.

De maneira geral, principalmente na cena curitibana, o Jesus era muito respeitado justamente pela ousadia de fazer algo fora dos padrões da época. “O Jesus And Mary Chain fez parte da trilha sonora da minha adolescência e de vários outros  jovens da minha geração. Lembro da primeira vez que ouvi o clássico ‘Psychocandy’ na casa de um amigo e no dia seguinte lá estava eu com uma fita BASF para que ele gravasse em um Gradiente 3 em 1 que ele tinha. Naquela época, ainda não existia a MTV, mas quando víamos os clipes deles em outros programas na TV,  era muito legal, pois tinha o lance do visual e a postura da banda”, conta o vocalista do grupo curitibano Os Joanetes, Irineu Almeidassauro.
Assim, quando grupo veio tocar em Curitiba, boa parte do público já mantinha uma certa idolatria pelos irmãos Reid. “Muito se comentou antes do show e até hoje ele é lembrado como um dos grandes acontecimentos na cidade. E existia todo clima especial em Curitiba, com várias bandas pintando na cena. Foi tipo uma final de campeonato. Eu já tocava na época e sentia isso nas pessoas. No show, digamos que eu já estava em um clima lisérgico, quase funcionando no automático. Foi uma noite que demorou para passar (risos)”, complementa.

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