Texto: Marcos Anubis
Fotos e revisão: Pri Oiveira

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A música sempre foi uma grande ferramenta de mobilização social. Ao longo da história, vários festivais nasceram para contribuir com alguma causa específica. O maior exemplo é o Live Aid, que aconteceu 1985, organizado pelo cantor, músico e compositor irlandês Bob Geldof para arrecadar fundos para combater a fome na Etiópia. Esse festival reuniu os maiores astros da música na época, entre eles, Queen,  Simple Minds,  U2 e David Bowie.

Nesse sábado (12), foi a vez de Curitiba se mobilizar por uma causa nobre. Mais de 8 mil pessoas foram à Pedreira Paulo Leminski para acompanhar o Festival Rock’n’road, um evento que foi realizado para arrecadar fundos para a construção do Erastinho, uma nova unidade do Hospital Erasto Gaertner (uma das referências no tratamento do câncer no Brasil). O novo pavimento do complexo vai atender especificamente crianças e adolescentes com câncer.

As atrações musicais do palco principal da Pedreira foram as bandas Motorocker, Ira!, Raimundos e T-Ale, além de Frejat e Marcelo Falcão (ex-O Rappa). Já no palco montado pelo Hard Rock Café Curitiba, se apresentaram as bandas Punkake, República Pine, B.O.R. (Banda Outubro Rosa) e Rock Bugs, além do vencedor do concurso Viva Curitiba, Guiga T., e da banda vencedora do Viva Rock Latino.

Além dos shows, o evento também contou a com a participação de motoclubes, exposição de veículos e motos customizadas e outras atrações.

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T-Ale

O grupo paulista T-Ale abriu o evento tocando um repertório composto por covers de vários artistas. Entre eles, “Tempo perdido”, da Legião Urbana, e “Suedehead”, do cantor e compositor britânico Morrissey.

A banda também contou com a participação do baixista Júnior Groovador, que se tornou uma celebridade na música brasileira após receber o convite e participar do show do ator Jack Black, no Rock in Rio. Entre outras músicas, Juninho tocou o clássico “Ciúme”, do Ultraje a Rigor.

Confira o vídeo de “Ciúme” (com a participação de Júnior Groovador) gravado ao vivo no show do T-Ale na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

T-ALE - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski motorocker2

Motorocker

Os curitibanos do Motorocker vieram na sequência fazendo um show que já está consagrado entre os rockers da capital paranaense. Marcelus dos Santos (vocal), Luciano Pico e Eduardo Calegari (guitarras), Silvio Krügger (baixo) e Juan Neto (bateria) abriram a apresentação com “Igreja universal do reino do Rock”, “Acelera e freia” e “Blues do Satanás”. O setlist do show ainda teve “Homem livre” e “Pegada seca”, entre outras músicas.

Em 2015, o Motorocker foi a primeira banda autoral curitibana a se apresentar no palco da Pedreira após a reabertura do local. Naquela ocasião, o grupo abriu o show do Kiss e demonstrou muita segurança e tranquilidade, o que não é uma coisa simples em um evento gigantesco aquele. A performance gerou até o convite para tocar no Rock in Rio, alguns meses depois. De lá pra cá, com muito trabalho, o respeito que o Motorocker conquistou no meio musical só aumentou.

“Salve a malária” encerrou a apresentação que também ficará marcada na carreira do Motorocker como uma oportunidade que a banda teve para auxiliar uma grande causa. “Nós sempre tivemos essa preocupação social. Foi um grande prazer participar e contribuir de alguma forma”, afirma Marcelus.

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Novo álbum e novos rumos

O Motorocker está prestes a começar a gravação de um novo álbum que deve significar um passo diferente na trajetória dos malárias curitibanos. Afinal, a chegada de um novo personagem (produtor) na vida do grupo, vem mudando a concepção de carreira da banda. “Foi um imprevisto, mas um imprevisto bom. Ele pediu algumas músicas que fossem um pouco mais ‘radiofônicas’, o que nunca foi a nossa proposta. Nossos discos sempre tiveram letras subversivas, então isso é uma barreira. Só que esse cara tem essa visão e ele abriu os nossos olhos. No começo foi difícil, porque a gente pensava: ‘Como assim? Você quer que a banda mude”? Mas não é mudar, a banda só vai ganhar um upgrade”, explica Marcelus.

O trabalho já está muito bem encaminhado e a intenção da banda é que ele seja lançado no ano que vem. “As músicas já estão uns 80% prontas, temos até faixas sobrando. Agora, com essa lapidada, só vai demorar um pouquinho mais”, diz Krügger.

Só que, após quase três décadas de estrada, não foi fácil negociar algumas concessões sem perder a essência da banda. “A gente sempre fez as músicas do jeito que bem entendia. Ele chegou com novas ideias e, no começo, foi um pouco difícil pra processar. Então, nós fomos acertando e unindo as duas coisas: o nosso som subversivo, malandro, aliando com a visão dele”, complementa o baixista.

Com uma percepção musical que também avaliava o mercado fonográfico brasileiro, o produtor questionou algumas ideias que estavam enraizadas há muito tempo dentro do grupo. “Ele escutou o disco e falou: ‘tá muito legal, se vocês estivessem nos anos 1980! Vocês estão com a cabeça nos anos 1980, mas é preciso renovar’. Ele até brincou que a gente vai morrer daqui a pouco, porque já estamos mais velhos, casados e com filhos (risos). Ele disse que é preciso renovar e atingir uma gurizada nova. Eu nunca tinha pensado nisso. Para mim, o Rock era atemporal e eu ia fazer o meu som do jeito que ele era até o fim da vida. Graças a ele, a gente está conseguindo olhar mais longe, e eu acho que isso será muito bom pro Motorocker”, diz Marcelus.

A ideia de lapidar um pouco o som não é uma coisa nova no Rock brasileiro. Praticamente todas as bandas, por mais violentas e agressivas que sejam, sempre passam por um processo semelhante para atingir um público maior. “A gente já tem quase 30 anos de estrada, já gravamos três álbuns, três EPs e mais de 60 músicas. Então, está na hora da gente fazer mais ou menos o que os Titãs fizeram. No começo, eles eram como o Motorocker, mas começaram a atingir outro público também. Hoje, eles vivem até mais das músicas mais tranquilas, menos agressivas verbalmente. Eu acho que, pra gente, não vai custar fazer algo nesse sentido também”, explica o vocalista.

Mas as surpresas não param por aí! Uma das canções do disco que promete causar espanto nos fãs é uma versão “malária” para “Música Urbana 2”, da Legião Urbana! Originalmente, a canção é um blues bem lento levado apenas com violão e voz, mas, obviamente, os curitibanos a transformaram em canção bem mais agressiva. “O Digão (vocalista dos Raimundos) me ligou numa manhã e falou: ‘Cara, eu estou andando aqui, ouvindo essa música e vendo o Motorocker gravar com a cara de vocês”! Eu não entendi nada! Eu nem conhecia a música (risos). Aí, ele tocou uma levada no violão e disse: ‘Façam mais ou menos assim’. Nós trabalhamos em cima dela, colocamos um riff com o nosso jeito e ela ficou sensacional!”, diz Marcelus.

Porém, mesmo com todas essas novidades, os fãs podem ficar tranquilos porque isso não significa que o Motorocker vai perder a essência underground que sempre carregou. “Não vai mudar a malária, não se preocupem! A malária infecta!”, finaliza o vocalista.

Resta ficar na expectativa e aguardar para ver o que essa nova fase do Motorocker vai trazer de diferente. Confira o vídeo de “Rock na veia” gravado ao vivo no show do Motorocker na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Motorocker - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski raimndos

Raimundos

Os Raimundos vieram em seguida para apresentar o show que comemora os 25 anos de estrada do grupo. Nessa turnê, além da formação normal da banda com Digão (guitarra e vocal), Canisso (baixo), Marquim (bateria) e Caio (bateria), o grupo também conta com Fred, o baterista original do Raimundos.

A banda abriu o show com “Puteiro em João Pessoa”, música que colocou os Raimundos no cenário musical brasileiro no início da década de 1990, seguida por “Palhas do coqueiro” e “MMs”. No repertório, o grupo tocou quase na íntegra o álbum de estreia, “Raimundos” (1994).

Depois de “Marujo”, Caio se juntou a Fred, e a banda passou a contar com os dois bateristas no palco. Na sequência, “Selim” foi cantada por todo o público, o que claramente surpreendeu Digão. O vocalista chegou a largar a guitarra para agradecer aos fãs. O espanto é justificável porque o Rock’n’Road não foi um show tradicional, afinal, muitas pessoas estavam lá para apoiar a construção do Erastinho e essa parcela do público não tinha necessariamente uma ligação com as bandas. Mesmo assim, essas pessoas conseguiram se conectar ao show, o que mostra que a música realmente tem um poder muito grande.

Na parte final do show, em uma atitude bem simpática, Digão convidou Júnior Groovador para tocar “Mulher de fases” com a banda. Ao chegar no palco, o baixista se dirigiu ao público e disse o que já virou uma espécie de mantra nas aparições do músico potiguar nas últimas semanas: “Vamos vencer na vida”!

Juninho foi muito bem recebido pelo público. Depois, ele ainda participaria do show das meninas da banda curitibana Punkake, no palco Hard Rock Café.

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Raimundos curitibanos

Curitiba é a segunda ou, se levarmos em conta a quantidade de shows que o grupo já fez na capital paranaense, até a primeira casa dos Raimundos. Afinal, desde o início, a banda criou uma conexão instantânea com a cidade. “Quem trouxe a gente para o primeiro show em Curitiba foi o J.R. Foi em um evento de comemoração do 92 Graus que rolou no Ginásio do Círculo Militar. Eu lembro que tinha o Boi Mamão, o Pin Heads e o Resist Control, e aí a gente fez uma amizade muito legal com essa galera”, relembra Canisso. O show aconteceu na 3ª edição do festival National Garage, em 1994.

Daquele momento em diante, Curitiba se tornou uma parada obrigatória nas turnês dos Raimundos. “A partir daí, nós começamos a vir direto pra Curitiba. Chegamos a tocar duas vezes por aqui em apenas um mês. Se a gente juntar todos os lugares que mais tocamos em todo o mundo, o primeiro é Curitiba, mais até do que Brasília! Foi aqui que nós gravamos os clipes de ‘Esporrei na manivela’ e de ‘Rapante’, por exemplo. Os caras do Motorocker são nossos brothers, fizemos até turnê juntos. Nós temos uma ligação fortíssima com Curitiba!”, finaliza Canisso. “Me lambe” e “Ela tá dando” encerraram o show na Pedreira.

Confira o vídeo de “Mulher de fases” (com a participação de Júnior Groovador) gravado ao vivo no show do Raimundos na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Raimundos - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski frejat

Frejat

O próximo a se apresentar foi o cantor, músico e compositor Frejat. Acompanhado por Billy Brandão (guitarra e backing vocal), Bruno Migliari (baixo e backing vocal) e Marcelinho da Costa (bateria), Frejat abriu o show com “Puro êxtase”, “Pense e dance” (que tem um dos melhores riffs compostos por ele) e “Pedra, flor e espinho”.

Frejat possui um repertório de sucessos invejável que vem desde o Barão Vermelho, passa pela carreira solo e também engloba canções que viraram hits quando foram registradas por outros artistas. É o caso de “Malandragem”, gravada pela falecida Cássia Eller.

Depois da versão de “Me dê motivo” (Tim Maia), Frejat trocou a guitarra pelo violão para fazer um set acústico com “O poeta está vivo”, “Codinome beija-flor”, “Por você”, “Segredos”, “Malandragem” e “Amor pra recomeçar”.

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Saudações a quem tem coragem

Há muitos anos, Roberto Frejat decidiu investir de maneira mais forte na carreira solo. Fora do Barão, ele deixou a guitarra “um pouco de lado” e passou a compor canções baseadas em voz e violão, valorizando as letras e a melodia. Essa atitude acabou mostrando que o texto de Frejat também é um dos pontos fortes do ex-Barão Vermelho.

Porém, na Pedreira,  cada vez que Frejat pisava no pedal de ganho e fazia um solo, o público se enchia de saudosismo. Afinal, ele é um dos guitarristas mais talentosos da história do Rock brasileiro, e os fãs nitidamente sentem falta dessa pegada mais Rock’n’roll.

Na parte final do show, Frejat tocou um set com três músicas de Raul Seixas: “Tente outra vez”, “Só pra variar” e “Como vovó já dizia”, fazendo questão de valorizar um dos ícones da música brasileira. “No Brasil, um festival não é um festival de verdade se alguém não tocar Raul Seixas”, disse. “Exagerado” e “Pro dia nascer feliz” encerraram a apresentação.

Confira o vídeo de “Malandragem” gravado ao vivo no show de Frejat na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Frejat - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski falcão

Marcelo Falcão

Depois de 25 anos ao lado da banda carioca O Rappa, o vocalista Marcelo Falcão está começando a construir uma nova história. Ele acaba de lançar o primeiro trabalho solo, “Viver (Mais Leve Que o Ar)”, mas a conexão com a ex-banda é eterna e sempre estará presente.

Ao lado de Bino Farias (baixo), ex-integrante do Cidade Negra, Hélio Ferinha (teclados), DJ Negralha, do curitibano Felipe Boquinha (bateria) e de Edésio Gomes, Eneas Pacifico e Vinicius de Souza (metais), Falcão abriu o show com três faixas do novo álbum: “Quando você olha pra mim”, “Hoje eu decidi” e “Viver”. O repertório da apresentação também teve espaço para muitas músicas do Rappa. “Eu jamais vou negar as minhas raízes, o lugar de onde eu vim!”, disse Falcão.

Uma das características mais fortes do trabalho do Rappa eram as letras de Marcelo Yuka, que morreu no início deste ano. Todas essas composições traziam uma contestação social muito forte, em forma de poesia. Hoje, elas continuam sendo impactantes porque falam da realidade urbana de qualquer brasileiro. Nessa linha, Falcão apresentou várias canções do Rappa que têm esse enfoque, como “Lado B, lado A” e “Rodo cotidiano”.

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Respeito e música

Falcão estava nitidamente com um astral muito bom durante todo o show e repetiu várias vezes a palavra “respeito”. Depois do show, nas redes sociais, ele agradeceu o carinho do público na Pedreira. “Recepção fantástica de Curitiba no primeiro festival da tour ‘Viver’. Sem palavras pelo respeito e pelo carinho. O que fazemos aqui é música e isso é tudo que importa para um músico. Que seja sempre assim!”, dizia a nota.

A presença de um naipe de metais, ao vivo, fez toda a diferença no show, pois deu mais peso e melodia às canções. Além disso, o groove de Bino Farias é inconfundível e dá muito ritmo às músicas. É muito bom ver o ex-baixista do Cidade Negra de volta aos grandes palcos.

Na concepção do show, a produção de Marcelo Falcão também inclui alguns elementos cênicos (colunas de fumaça e muitos vídeos no telão ilustrando cada uma das músicas). “Me deixa”, “Pescador de ilusões” e “Anjos” encerram a apresentação.

Confira o vídeo de “O salto” gravado ao vivo no show de Marcelo Falcão na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Marcelo Falcão - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski ira2

Ira!

A banda paulista Ira! encerrou a noite na Pedreira. Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e backing vocals), Johnny Boy (baixo) e Evaristo de Pádua (bateria) abriram a apresentação com “Longe de tudo”, “Flerte fatal” e “Dias de luta”. O repertório do show teve vários clássicos, como “Gritos na multidão” e “Envelheço na cidade”. Por incrível que pareça, mesmo que a banda esteja prestes a completar 40 anos de vida, esse foi o primeiro show do Ira! na Pedreira.

Usando uma clássica Rickenbacker Sunburst, comprada no início do ano em Curitiba, Edgard desfilou elegância e atitude na maneira de tocar guitarra. No bolso da camisa, Scandurra carregava um bóton com a imagem da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada no ano passado no Rio de Janeiro.

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Guitar hero

No Brasil, quando se pensa em guitarra, é impossível não pensar em Edgard Scandurra. Afinal, alguns dos maiores riffs do Rock nacional nasceram da genialidade do guitarrista do Ira!, como “Farto de Rock’n’roll” e “Pobre paulista”.

Da mesma maneira, Nasi continua sendo um dos maiores frontmen do Rock brasileiro. É óbvio que a voz já não alcança os mesmos tons do início da banda, afinal, isso é uma coisa natural, pois o tempo passa para todos. O importante, nesses casos, é saber se adaptar, e Nasi conseguiu fazer isso muito bem ao cantar de maneira mais grave.

Entre o público, era nítido o respeito que o Ira! desperta em qualquer nos fãs. Afinal, em quatro décadas de estrada, o grupo sempre manteve uma linha musical coerente. E essa história está prestes a ganhar outro capítulo, porque o grupo está trabalhando em um novo álbum de inéditas, o primeiro desde “Invisível DJ” (2007). Você pode conferir neste link a entrevista exclusiva que Nasi concedeu ao Cwb Live falando sobre o novo trabalho e sobre a relação com a cidade de Curitiba.

Depois de “Núcleo base”, o grupo se retirou rapidamente do palco e voltou para encerrar a apresentação com “Girassol” e “Bebendo vinho”. Confira o vídeo de “Dias de luta” gravado ao vivo no show do Ira! na Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

IRA - Festival Rock'n'Road - Pedreira Paulo Leminski