Texto: Marcos Anubis
Fotos: Camila Kovalczyk

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Muitas bandas ajudaram a construir os alicerces do Rock brasileiro nos anos 1980, mas poucas foram tão importantes e definitivas quanto a Legião Urbana. Em 1996, a morte de Renato Russo, o vocalista e mentor do grupo, só aumentou a idolatria em torno da banda.

Na versão atual do grupo, batizada de Legião Urbana XXX Anos por causa da briga com o filho de Renato, Giuliano Manfredini, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá (integrantes originais da Legião) têm procurado manter esse legado vivo. Dessa maneira, a apresentação na 2ª edição do festival Prime Rock Brasil, que aconteceu no sábado (7) na Pedreira Paulo Leminski, foi uma oportunidade única para velhos fãs e para a nova geração que conheceu a banda nessa nova fase.

Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria), acompanhados por André Frateschi (vocal), Lucas Vasconcellos (guitarra), Mauro Berman (baixo) e Roberto Pollo (teclado) abriram o show com “Daniel na cova dos leões”, “Quase sem querer” e “Eu sei”. O repertório do show teve grandes clássicos, entre eles, “Há tempos” e “Que país é este”, e também músicas mais undergrounds, como “Fábrica”.

Para os fãs, a comparação de Frateschi com Renato Russo, obviamente, era inevitável. Porém, a escolha feita por Bonfá e Dado certamente foi muito além de ter alguém que “cantasse bem”. André não força a barra em nenhum momento no sentido de querer ser um “novo Renato Russo”. É nítido que ele entende o lugar de coadjuvante em um contexto de celebração da obra da Legião Urbana.PrimeRock_2019_Legiao_26

Letras que dizem muito a quem sabe ouvir

Além de ser uma forma de entretenimento, a música tem um poder impressionante de ensinar e abrir os olhos das pessoas em relação a vários assuntos importantes. Para o público que possui um pouco mais de sensibilidade, qualquer canção da Legião traz uma mensagem importante e que merece ser absorvida.

Dentro desse contexto, a obra da Legião, principalmente em relação às letras de Renato Russo, é claramente atemporal. Afinal, muitas músicas que foram compostas pelo grupo há mais de 30 anos soam como se tivessem sido lançadas hoje. É o caso de “Índios” que, mesmo que tenha sido escrita há 33 anos, é tão assustadoramente atual que parece uma premonição. No show, a interpretação de Frateschi deu um tom ainda mais carregado de energia em relação ao que a canção originalmente já carrega.

Um dos grandes momentos do show, nesse caso literalmente, foi “Faroeste caboclo”, a epopeia de nove minutos de duração na qual Renato Russo contava a história de João do Santo Cristo. Em “Pais e filhos”, Bonfá assumiu o vocal e Frateschi foi para a bateria. Já em”Tempo perdido”, o vocalista do Capital Inicial, Dinho Ouro Preto, e o guitarrista do Jota Quest, Marco Túlio, se juntaram ao grupo para tocar um dos maiores sucessos da Legião.

“Perfeição”, descrita por Frateschi como o hino do Brasil, encerrou a apresentação. “Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações. O meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões. Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão. Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado, que não é nação”, diz a letra.

Para o público mais jovem que estava na Pedreira, essa foi a primeira chance de ver a Legião ao vivo e, dessa maneira, por tudo que cerca a banda, a carga emocional do show foi a mais intensa do festival. Afinal, Renato Russo sabia retratar poeticamente as mazelas do Brasil de maneira magistral e, ao conseguirem tocar o coração das pessoas com esse tipo de mensagem, Dado e Bonfá estão prestando a maior homenagem que poderiam ao ex-companheiro.

Confira o vídeo de “Índios” gravado ao vivo na apresentação da Legião Urbana XXX Anos na Pedreira Paulo Leminski e veja o nosso álbum de fotos do show.

Legião Urbana XXX Anos - Prime Rock Brasil - Pedreira Paulo Leminski - 7/12/2019