Texto: Marcos Anubis
Fotos: Camila Kovalczyk

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Na metade dos anos 1980, o Rock brasileiro ficava praticamente restrito ao eixo Rio/São Paulo. Afinal, as grandes gravadoras, os maiores veículos de comunicação e, consequentemente, o maior número de bandas fazendo sucesso estavam nessas duas cidades. Porém, a semente do Rock já estava dando frutos em muitas outras cidades do país, entre elas, Belo Horizonte, Salvador e Curitiba, que já começavam a mostrar novidades.

Porém, a honra de ser a primeira capital fora do eixo a realmente encarar de frente o que era feito por paulistas e cariocas coube a Porto Alegre. E nessa leva de bandas gaúchas, o Nenhum de Nós foi uma das primeiras a emergir do Sul e se tornar conhecida e respeitada em todo o Brasil. Ao lado deles estavam, entre outros grupos, o Defalla, os Engenheiros do Hawaii, os Replicantes, o TNT, os Cascavelletes e os Garotos da Rua.

Nesse sábado (7), na 2ª edição do festival Prime Rock Brasil, que foi realizado na Pedreira Paulo Leminski, o Nenhum de Nós mostrou que essa luta que teve início em 1986 continua dando frutos até hoje.

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Música, mensagem e consciência

Thedy Corrêa (vocal), Veco Marques e Carlos Stein (guitarras), João Vicenti (teclados e acordeon), Sadi Homrich (bateria) e Estevão Camargo (baixo) abriram o show com “Paz e amor”, “Eu caminhava” e “Amanhã ou depois”. Nitidamente, a banda estava muito feliz por fazer parte de um festival tão representativo e por estar pisando em um local que é sagrado para a cena musical curitibana. “A Pedreira é um local sagrado pra cultura da música brasileira! Há muito tempo não tocávamos em um festival de Rock como o Prime! Lembramos de outro show que fizemos na Pedreira há muitos anos e foi muito bom ver a evolução do aparato e da organização. Está cada vez melhor!”, elogia Sadi.

Uma das características que fizeram e ainda fazem o público se interessar pelo trabalho do Nenhum de Nós é a parte lírica das canções do grupo. Essa preocupação em passar uma mensagem por meio das músicas, que praticamente todas as bandas que surgiram nos anos 1980 carregavam, ainda permanece até hoje. “Acredito que o público está carente de músicas com conteúdo poético mais consistente. Tudo bem em curtir canções mais fáceis como diversão pura e simples, mas os tempos atuais pedem momentos de reflexão e posicionamento para os que pretendem fazer a diferença no futuro. Daí, é importante ter bandas que valorizem a leitura, a informação com credibilidade e a originalidade sem serem datadas. Posso afirmar que a plateia do Prime Rock Curitiba tem muito talento!”, diz o baterista.

Esse preocupação demonstrada pelo grupo ficou evidente antes de “Camila, Camila”. Antes de iniciar a música, Thedy explicou que, ao contrário do que muitos pensam, o maior clássico do Nenhum de Nós não é uma canção de amor. Na verdade, a letra fala sobre violência contra a mulher. “Enquanto houver uma mulher sendo vítima de violência e de abuso nesse país, essa canção precisará ser cantada”, disse o vocalista no palco da Pedreira.

Obviamente, os fãs que acompanham mai de perto o trabalho do NDN já sabiam disso, mas foi impressionante ver que muitas pessoas realmente se surpreenderam ao descobrirem o tema real dessa canção. “Essa música tem mais de 30 anos e acabou escrevendo uma história que vai além das paradas de sucesso. Foram inúmeras manifestações de fãs que encontraram apoio nos versos dessa canção. Ela foi utilizada em campanhas de conscientização e algumas entidades ligadas à causa das mulheres têm no Nenhum de Nós uma referência nas atitudes que os homens podem tomar para colaborar com a luta contra a violência de gênero”, explica Thedy.

A preocupação do grupo gaúcho é plenamente justificada, afinal, em tempos de apologia à violência, ter vozes representativas no meio artístico é ainda mais necessário. “Falar sobre isso nos shows é importante para estimular ainda mais o debate sobre qual é a real situação disso no país”, complementa o vocalista.

“O astronauta de mármore” encerrou o show com uma imagem gigantesca de David Bowie na capa do álbum “Heroes” (1977) sendo exibida no telão. Para o Nenhum de Nós, a convivência com bandas que, a exemplo do grupo gaúcho, ajudaram a construir os alicerces do Rock brasileiro, ficará marcada. “Foi uma experiência rica e feliz, pois encontrar os amigos de estrada em um festival maravilhoso como é o Prime Rock Brasil reforça a nossa crença na relevância de nossas trajetórias”, diz o vocalista.

Depois de fechar 2019 com um grande show na Pedreira, o Nenhum de Nós já passa a colocar em prática a concepção de um novo álbum, afinal, a trajetória da banda continua a ser escrita. “Estamos dando os primeiros passos na direção de um novo disco de canções inéditas. Creio que ainda no primeiro semestre de 2020 já teremos novidades”, finaliza Thedy.

Confira o vídeo de “Camila, Camila” gravado ao vivo na apresentação do Nenhum de Nós na Pedreira Paulo Leminski e veja o nosso álbum de fotos do show.

Nenhum de Nós - Prime Rock Brasil 2019 - Pedreira Paulo Leminski - 7/12/2019