Texto: Marcos Anubis
Fotos e revisão: Pri Oliveira

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Ainda hoje, a importância dos Beatles para a cultura pop vai muito além da música. Afinal, Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr revolucionaram mundos completamente diferentes, que vão da moda ao show business, usando a mesma intensidade com que criaram canções que são clássicos eternos. Assim, ter a oportunidade de ver ao vivo um dos últimos remanescentes daquele período mágico é um privilégio para poucos.

Nesse sábado (30), as 42 mil e 600 pessoas que lotaram o Estádio Couto Pereira, em Curitiba, para assistir à apresentação de Paul McCartney, viveram uma noite mágica, que ficará para sempre na memória. Essa foi a segunda vez que o ex-Beatle tocou na capital paranaense (a primeira foi em 1993, na Pedreira Paulo Leminski).

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Cinquenta anos em duas horas e meia

Antes do início do show, que faz parte da turnê “Freshen Up”, os três telões posicionados no centro e nas laterais do palco exibiam imagens dos Beatles. O fato chamou a atenção porque mostrou claramente o respeito de Paul pelos ex-companheiros. Isso ficaria ainda mais claro com as referências que McCartney fez a John e George durante toda a apresentação.

Essa ligação eterna se justifica porque, além da química perfeita entre os integrantes, que resultava em composições inspiradíssimas, a grande sacada dos Beatles foi que a banda percebeu rapidamente que era preciso dar um passo à frente. Dessa forma, após gravar os primeiros álbuns seguindo a linha musical do que era feito na época (um Rock simples e melódico que falava de amor, basicamente) o grupo não teve medo de ousar. Daí, surgiram álbuns essenciais, como “Revolver” (1966) e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967).

Paul iniciou o show simplesmente com “A Hard day’s night”, uma das pérolas dos Beatles. A partir daí, durante aproximadamente duas horas e meia, McCartney apresentou um setlist composto por 37 músicas. O repertório teve, além dos sucessos do Fab Four, músicas do The Wings, da carreira solo de Paul, e até uma do The Quarrymen, banda formada por John Lennon nos anos 1950 e que deu origem aos Beatles.

Na turnê, a banda de McCartney é composta por Brian Ray (baixo e guitarra), Rusty Anderson (guitarra), Paul “Wix” Wickens (teclados) e Abe Laboriel Jr. (bateria). Juntos, os músicos criam uma base sonora que abrange o Rock’n’roll, o Blues e o Jazz de maneira impressionante. Porém, mesmo com esse time de estrelas, Abe se destaca por ser um daqueles bateristas com “mão pesada”. Além de comandar a intensidade das músicas, ele também faz excelentes backing vocals em quase todas as canções.

O envolvimento de McCartney com o show é simplesmente inacreditável, ainda mais para uma pessoa que já está com 76 anos, sendo mais de 50 deles dedicados à rotina desgastante de turnês e gravações de álbuns.

Em uma atitude muito simpática e respeitosa com o público brasileiro, Paul se esforçou para falar várias frases em português. Essa conexão com a plateia só existe quando o artista, além do talento, também demonstra humildade para valorizar o carinho dos fãs ao redor do mundo.

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Momentos mágicos

O repertório de McCartney é extenso e repleto de sucessos, mas, no setlist apresentado em Curitiba, algumas canções foram especiais. “My valentine” foi dedicada à companheira de Paul, Nancy Shevell, com quem ele é casado desde 2011. “Eu escrevi essa música para a minha querida esposa. Ela está aqui hoje”, disse.

Durante o show, Paul também se referiu a questões humanitárias que estão cada vez mais sendo deixadas de lado no século 21. Antes de “Blackbird”, por exemplo, McCartney explicou que a letra da música fala sobre direitos humanos.

Na sequência, antes de tocar “Here today”, Paul deu uma das várias demonstrações de respeito aos ex-companheiros dos Beatles. “Eu fiz essa música para o meu irmão, John”, disse, referindo-se a Lennon.

Em “Lady Madonna”, os telões exibiram imagens de atletas, entre elas, a da corredora norte-americana Florence Griffith-Joyner, que morreu em 1998 em decorrência do uso de anabolizantes. Em seguida veio “Back in Brazil”, uma homenagem com direito até a uma percussão bem brasileira.

Entre as músicas novas, destaca-se “Fuh you”, que tem uma pegada pop moderna com a parte instrumental muito bem trabalhada. “Something”, uma das melodias mais inspiradas do repertório dos Beatles, foi dedicada a George Harrison. Depois, “Band on the run”, o grande clássico do The Wings, levantou o público no Couto Pereira.

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a belíssima “Let it be”, música que surgiu de um sonho que Paul teve nos anos 1960. Nele, McCartney via a mãe, Mary, que havia falecido, vindo até ele. Ao se encontrarem, ela percebeu o sofrimento do filho e ficou repetindo “let it be” (deixe estar), que ficará tudo bem. Quando acordou, Paul sentiu-se melhor e escreveu uma das músicas mais tocantes dos Beatles.

Na sequência, em “Live and let die”, labaredas gigantes se ergueram em frente ao palco, em um espetáculo cênico de fazer inveja a qualquer banda de Heavy Metal (grupos que normalmente utilizam desses artifícios no palco).

“Hey Jude” encerrou a primeira parte do show. Durante a música, o público exibiu os milhares de cartazes que foram distribuídos no estádio e que traziam parte do refrão . Ao reger a plateia, Paul simplesmente usou duas das mais conhecidas gírias curitibanas ao se referir às mulheres (gurias) e aos homens (piás). Quer uma demonstração maior de simpatia?

Na volta para o bis, Paul arrancou sorrisos do público ao dizer em bom português “nós temos que vazar”! Na sequência vieram “Birthday”, “Sgt. Peppers lonely hearts club band” e “Helter skelter”, com a trinca “Golden slumbers/Carry that weight/The end”, do álbum “Abbey Road” (1969), encerrando o show.

Antes de sair do palco, Paul agradeceu o público brasileiro e soltou um “Até a próxima”, antes de uma explosão de fumaça que cobriu o público com papéis amarelos, verdes e azuis. Seria o prenúncio de que McCartney pode voltar a Curitiba na próxima passagem pelo Brasil?

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O sentimento dos fãs

Para o público que lotou o Couto Pereira, a experiência de ver um dos grandes ícones da história da música foi inesquecível. “Acho que é um grande privilégio poder ver em Curitiba um show do Sir Paul McCartney, um cara que já fez tudo o que fez pela música, mas ainda está aí, aos 76 anos, com muita energia e ainda compondo e fazendo shows no mundo inteiro. Foi incrível escutar as músicas dos Beatles tocada pelo próprio autor, que compôs e gravou essas canções! O único ponto negativo para mim foi a acústica nas cadeiras sociais, que estava bem ruim, mas isso é compreensível, devido ao show ser em um estádio. Foi um dos melhores espetáculos que já presenciei!”, diz o músico Fernando Nahtaivel (37).

Quem viu um show de Paul McCartney pela primeira vez também ficou impressionado. “Sempre fui muito fã dos Beatles e do Wings, então, ver a vitalidade de um cara com mais de 70 anos foi indescritível. O setlist foi quase perfeito (fã de música é um bicho chato) porque faltaram algumas que, em minha opinião, ele nunca deveria tirar dos shows, como a ‘Jet’, por exemplo. O histórico final da ‘Hey jude’, com o estádio todo erguendo os cartazes do ‘na, na, na’ foi sensacional! Genial é muito pouco para quem mudou a história da música”, diz o músico Thiago “Indisplicente” Lemes (32).

Alguns fãs tiveram o privilégio de ver Paul pela segunda vez em Curitiba, pois também estiveram no show de 1993, na Pedreira Paulo Leminski. “Ali havia a emoção de ver um Beatle pela primeira vez. Um probleminha na organização fez com que ele antecipasse o início do show, por isso, muita gente ouviu as primeiras músicas ainda na fila. Ainda assim foi inesquecível!”, diz o pedagogo e músico Nélio Waldy (56).

Já dessa vez, no Couto Pereira, o show foi igualmente marcante. “Gostei da inclusão da ‘Junior’s farm’, que não é dos álbuns de carreira, e adorei os recursos imagéticos que complementam a experiência de reavivar a memória afetiva, ao mesmo tempo que ambientam a contemporaneidade da obra. Hoje, 26 anos depois, o Paul ainda emociona, e muito. Sua música atemporal conecta várias gerações!”, complementa Nélio.

Além da parte musical, a consciência social demonstrada por McCartney também chamou a atenção do público. “O Paul foi muito generoso conosco ao falar frases no nosso idioma. Quando chamou a atenção para os Direitos Humanos e repetiu as duas palavras em inglês e português, ele sabia que estava levantando uma bandeira importante para o nosso momento. E fez isso na véspera do dia no qual lembramos o início da Ditadura Militar no Brasil. Não foi pouco, foi necessário e, ao ouvir a resposta de parte do público que gritou ‘ele não’, Paul ainda acompanhou os gritos com a guitarra”, diz a professora Sandra Nodari (45).

Entre as gerações mais novas, a paixão pelo trabalho de Paul McCartney é igualmente forte. É o caso da jornalista Daniele Vieira (24), que já havia visto o ex-Beatle em 2014 na turnê “Out There”, em São Paulo. “Em minha opinião, a melhor parte do show do Paul é ver como o amor – tema de tantas canções – surge em suas diferentes formas durante o espetáculo. É ver um pai abraçado com os filhos cantando as músicas juntos, netos cuidando de seus avós e curtindo o momento ou jovens com seus amigos vivenciando momentos que ficarão para sempre em suas memórias. Quando o Paul e a banda dele chegam ao palco, eles conseguem aflorar os melhores sentimentos nas pessoas e tocar até o coração mais durão. Posso afirmar que as duas vezes que eu o vi ao vivo foram totalmente diferentes. Agora eu entendo que nenhum show dele é mais do mesmo, na verdade, é algo maior do que isso”, afirma Daniele.

Na visão da jovem fã, a frase “All you need is love” (Tudo que você precisa é de amor), título de um dos grandes sucessos dos Beatles, resume bem o que é o trabalho de Paul McCartney. “É conseguir vivenciar e sentir à flor da pele como a música move nossa vida, como todos vivenciamos situações boas e ruins no nosso cotidiano e que, mesmo em meio a tanta violência e ódio, no final, tudo que nós precisamos é de amor. E esse sábado foi repleto dele, principalmente do amor por esse senhor que uniu 42 mil pessoas de diferentes gerações”, complementa a jornalista.

A aura que McCartney carrega junto de si em qualquer lugar que vá, seja em um show ou na vida particular, realmente é especial, e os fãs percebem isso claramente. “Quando eu era criança, já amava os Beatles e curtia as músicas da carreira solo do Paul. Lembro de ler os livros de história sobre a beatlemania e de ver várias fotos desses caras que mudaram o Rock e o mundo. Ontem, a poucos metros do Paul, senti como se eu estivesse presenciando uma parte importante da História, só que em carne e osso. Ver o show de um Beatle ao vivo e a cores foi algo que eu não vou esquecer. Fiquei admirada com o carisma e a humildade dele, ainda mais pelas interações com o público que mostraram o quanto ele se importa com os fãs brasileiros. Já fui em vários shows, mas nenhum teve um clima tão positivo e de amor quanto o do Paul. Foi uma noite mágica para mim e eu cantei várias das minhas músicas favoritas junto com Sir Paul McCartney”, diz a relações públicas Samanta Carvalho (25).

Ao saber da percepção de todos esses fãs, de várias gerações diferentes, uma coisa fica bem clara: é cada vez mais nítida a necessidade de valorizar e acompanhar o trabalho desses gênios da música. Afinal, a grande maioria deles já passou dos 70 anos. Muitos, aliás, estão se aposentando, e a lacuna que esses ícones deixarão quando não estiverem mais na ativa não será preenchida facilmente.

Assim, sorte dos que ainda podem curtir ao vivo essas figuras emblemáticas que ajudaram a construir a cultura pop ao longo das últimas cinco décadas. “Foi uma noite incrível para ficar na memória! A união de mais de 40 mil pessoas cantando juntas explica exatamente a magia que só a música proporciona”, finaliza o músico, compositor e produtor musical Renato Ximú (38).

Confira a música “Live and let die”, gravada ao vivo no show no Estádio Couto Pereira. Veja também o álbum de fotos da apresentação.

Paul McCartney - Estádio Couto Pereira - 30/03/2019