Texto: Marcos Anubis
Fotos: Pri Oliveira

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Completar três décadas de história mantendo-se leal aos ideais e nuances sonoras que deram início a uma trajetória é motivo de muita comemoração e orgulho. Fazer isso em Curitiba, onde tradicionalmente o apoio aos artistas locais é quase inexistente, torna o feito ainda mais importante. Por isso, o trio curitibano Relespública tem muito o que comemorar. “Sobreviver a tantos anos juntos é muita sorte! Fazer o que a gente ama é algo que não tem preço. Fodam-se as diferenças e dificuldades. Isso é Rock’n’Roll!”, diz o vocalista e guitarrista da Relespública, Fabio Elias.

Nesta quinta-feira (14), o grupo se apresenta no Jokers em uma grande festa para celebrar esses 30 anos de vida. Além de Fabio Elias (guitarra e vocal), Ricardo Bastos (baixo) e Emanuel Moon (bateria), a programação do evento também contará com vários convidados especiais que fizeram parte de alguma forma da carreira da Relespública.

Entre eles estão os ex-integrantes Ivan Santos, Kako Louis e Roger Gor, além dos músicos Cassiano Fagundes (Magog, Cacique Revenge), Marcus “Coelio” Gusso (Julie Et Joe, Intruders), Xanda Lemos (Criaturas), Yan Lemos (Escambau), Renato Ximú (Carne de Onça), Fabio Serpe (Splippleman) e André Cordeiro (Nameless). Antes do show, será exibido em primeira mão o documentário “A História da Relespública”, produzido pelo cineasta Frederico Neto.

Um estilo de vida

Uma das coisas que mais chama a atenção na Reles é a conexão entre Fabio, Moon e Ricardo quando estão no palco ou fora dele. Sem dúvidas, esse é um dos segredos da longevidade do grupo. “Somos mais do que irmãos, somos unidos pela música. Isso é mais forte do que irmãos de sangue. Eu faço qualquer coisa pra estar no palco com esses caras!”, diz Fabio.

Porém, a história da Relespública também é marcada por situações complicadas. A mais forte é a tragédia que tirou a vida do vocalista da banda, Daniel Fagundes, que morreu em um acidente de carro em 1994. A perda até hoje é sentida tanto pelo grupo quanto por todos que acompanham a banda, afinal, Daniel era e ainda é um dos grandes talentos que a cena curitibana produziu. “Em tudo o que eu faço para a banda eu penso se o Daniel aprovaria com aquela cara ranzinza e de poucos amigos. Ele era mais novo do que eu e me ensinou tudo”, afirma.

Além do documentário, que deve ser lançado oficialmente em breve, e da biografia da Relespública, prevista para sair no ano que vem, o grupo também deve gravar um álbum de inéditas. “O documentário está quase pronto. O diretor teve sérios problemas de saúde e teve que dar uma pausa. O livro sai em 2020. Esse ano foi tudo muito corrido e louco! Lançar músicas novas é uma questão de honra e dignidade artística. Do ano que vem não passa!”, revela.

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O respeito de todos

Como não poderia deixar de ser, o respeito que a Relespública conquistou durante a trajetória da banda se mantém intacto. “Toda a cidade que se preza tem a sua banda de Rock. Curitiba às vezes é meio desprezível, mas pelo menos tem uma puta banda que é a Relespública. Para falar desses caras é preciso fazer uma lista. Todos eles tocam pra caralho! O grupo tem um puta compositor, uma história de sucessos e tragédias, marchas e contramarchas, erros absolutos e golaços impagáveis. Uma banda de três grandes artistas que tem, sobretudo, coragem. Esta é a qualidade maior para ser artista em qualquer tempo e, principalmente, nos dias de hoje”, diz o jornalista Sandro Moser, que está escrevendo a biografia da banda.

Outra marca muito forte do trio curitibano é a ferocidade que eles levam para o palco em qualquer lugar ou situação. “A Relespública é a redenção para todo mundo que acredita que um show de Rock é como tomar um passe. Eles são um delírio juvenil em tudo que o termo tem de melhor. Uma banda de sangue, suor e lágrimas!”, diz o jornalista e radialista Flavio Jacobsen.

Essa atitude Rock’n’roll nos shows da banda vem desde o começo do grupo e sempre impressionou mesmo os que não conheciam o trabalho da Reles. “Lembro das noites no Empório quando eu era moleque. Eu via aquele power trio tocando com sangue nos olhos e pensava: ‘isso é Rock, simples e verdadeiro como um soco de adrenalina’ (risos). Algum tempo depois, tive o prazer de conhecer os caras e de fã acabei virando amigo. A Relespública é umas das maiores referências que temos em nosso estado e mostra para todo o Brasil que aqui tem Rock, sim senhor!”, diz o músico Vagner Capone.

A persistência de seguir contra a maré das “modas do momento” também é uma das características do grupo que sempre é destacada pelos fãs. “A Reles é uma das três bandas mais importantes do Paraná e uma das mais relevantes do Brasil por várias razões, entre elas, a longevidade e a persistência. Quando começaram, eles eram uns piás, literalmente, e seguem fazendo tudo com a mesma alegria até hoje. Eles passaram por grandes gravadoras, tocaram em grandes festivais, mudaram o principal compositor e o vocalista e a Reles nunca perdeu a força. Eu acho que isso demonstra o tamanho do carisma deles. A Relespública é imprescindível para esse cenário!”, diz a jornalista Adriane Perin.

Para quem conviveu com a Relespública mais profundamente, a impressão não foi menos marcante. “Conheci a Relespública no início dos anos 1990, quando vim morar em Curitiba após concluir a faculdade de Comunicação em Ponta Grossa. O primeiro show que vi deles foi no TUC, e já nesse dia fiquei impressionado com a intensidade daqueles piás no palco. Mesmo muito jovens, eles já faziam um som que colocava muito veterano no chinelo. Ficamos amigos e acabei sendo convidado a cantar na banda após o trágico acidente que vitimou o vocalista Daniel Fagundes. Fiquei pouco tempo, mas o suficiente para ter um curso intensivo e prático de Rock’n’roll”, conta o jornalista e músico Ivan Santos, que fez parte da Reles durante alguns meses em 1994.

Depois de poucos ensaios, Ivan estreou na Relespública quando a banda abriu o lendário show dos norte-americanos do Fugazi no antigo 92 Graus. “Foi um batismo de fogo. Os caras do Fugazi fizeram questão de assistir ao show inteiro do lado do palco e ainda vieram cumprimentar a gente efusivamente depois. Tocamos no Aeroanta, no Juntatribo e até na Boca Maldita. Mesmo que não tenha ido em frente, aprendi muito com eles, e esse aprendizado serviu muito para outros projetos que eu tive depois, como a banda OAEOZ. Se um dia eu fosse escrever uma autobiografia, com certeza a Reles seria um capítulo especial. É algo que eu jamais vou esquecer. Considero a Relespública certamente a banda mais importante de Curitiba dos anos 1990 pra cá. Eles fizeram tudo o que uma banda pode fazer: tocaram no país inteiro, no Rock In Rio, lançaram disco por gravadora e DVD pela MTV. E continuaram sendo os mesmos caras humildes e autênticos que já eram quando os conheci ainda garotos. Se tem uma banda daqui que merece todas as honras e homenagens, é sem dúvida a Reles”, complementa Ivan.

Em um mar de artistas que mudam o rumo de acordo com as “exigências” do mercado, a Relespública se mantêm fiel ao que Fabio, Moon e Ricardo acreditam desde o início. Mesmo em meio a tantas mudanças no mercado fonográfico e no mundo em si nesses 30 anos, a trajetória do trio curitibano continua sendo escrita com dignidade. “Temos muitas referências, mas são as mesmas de sempre. O Rock’n’Roll nos ensinou tudo e ser Relespública é ser Rock’n’Roll sempre!”, finaliza Fabio Elias.

Os ingressos para o show desta quinta-feira (14) no Jokers custam R$ 20 (1º lote) e podem ser adquiridos no site Sympla e no próprio Jokers. O show começa às 21h. O Jokers fica na Rua São Francisco, 164, no Centro.