Texto: Marcos Anubis
Fotos: Pri Oliveira e Gisele Pimenta
Revisão: Pri Oliveira

Whitesnake 28 para postar

Curitiba recebeu, nessa quarta-feira (18), na Pedreira Paulo Leminski, três legítimos representantes do mais puro Hard Rock dos anos 1980. Europe, Whitesnake e Scorpions levaram uma multidão à Pedreira em uma grande celebração de uma das características mais marcantes que o Rock’n’roll sempre carregou: a diversão.

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Europe

O show da banda sueca Europe vai ficar marcado para sempre na memória do grupo e do público que estava na Pedreira. Afinal, por causa da tempestade que caiu em Curitiba, o quinteto teve que abandonar o palco antes de encerrar o setlist. Como consequência, pela primeira vez em 33 anos, a banda não tocou “The final countdown”, o maior sucesso do Europe e uma das músicas mais marcantes dos anos 1980.

A noite ainda estava caindo na Pedreira quando Joey Tempest (vocal), John Norum (guitarra), John Levén (baixo), Mic Michaeli (teclado) e Ian Haugland (bateria) abriram o show com “Walk the earth”, a pesadíssima “The siege” (do mais recente álbum do Europe, “Walk the Earth”, lançado em 2017), e “Rock the night”. O setlist ainda teve canções de todas as fases da banda, como “Scream of anger” e a primeira megabalada da noite, “Carrie”.

Na esmagadora maioria das bandas dos anos 1980, os vocalistas praticamente competiam para ver quem conseguia atingir as notas mais altas. Hoje, três décadas depois, a voz já não é mais a mesma e esses cantores precisam cantar em tons mais baixos para manter a afinação. Nesse grupo de vocalistas, Joey Tempest demonstrou ao vivo que envelheceu muito bem, pois soube se adequar ao tempo sem perder as características do som do Europe.

A banda é conhecidíssima por causa do megahit “The final countdown”, mas o trabalho do grupo sueco vai além disso. Musicalmente, o Europe consegue utilizar muito bem os teclados para criar um clima clássico da década de 1980, mas em cima de riffs de baixo e guitarra que soam bem atuais.

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O dilúvio

Após “Nothing to ya”, a banda começou a tocar “Supertitious”, mas tanto o Europe quanto o público foram surpreendidos por uma violenta tempestade que trouxe vento, chuva e granizo. Durante aproximadamente dez minutos, o público que estava na Pedreira foi alvejado por enormes pedras de gelo que caíam com uma força impressionante. “Elas machucavam muito as minhas mãos e a minha cabeça. Felizmente, a minha jaqueta protegeu os braços e costas das rajadas. Eu adorei o show, mesmo com essa fatalidade, porque assistir à minha banda do coração não teve preço. Porém, ficaria realmente triste se não tivesse visto a banda ao vivo anteriormente. Eu me solidarizo com quem nunca tinha visto a banda ao vivo e/ou esperava assistir ao megassucesso ‘The final countdown’. Foi um momento histórico, pois a banda nunca deixou de tocar o hit desde seu lançamento”, diz o luthier Paulo H. Ryba, que foi ao show especialmente para ver o Europe.

Ryba, que estava fazendo aniversário justamente na quarta-feira, estava na grade, bem em frente ao palco, e viu de perto o esforço que a banda fez para continuar o show. “Eu tentei ficar assistindo, e eles tiveram uma atitude corajosa, pois aguentaram o máximo que puderam no palco. Quando a aparelhagem desligou, eu me dei conta que estava sozinho na grade”, complementa.

Depois da apresentação, o grupo publicou uma nota explicando os motivos do encerramento. “Devido ao forte granizo, simplesmente não conseguimos terminar o show. Nós tentamos mesmo, mas finalmente a eletricidade acabou e o palco já não estava seguro. Foi a primeira vez desde 1986 que não tocamos “The final countdown” em um grande show! Mas vocês foram ótimos na audiência e nós vamos fazer o nosso melhor para voltar”, dizia a nota.

Confira o vídeo de “Carrie” gravado ao vivo no show do Europe da Pedreira e veja também o momento em que a banda precisou interromper a apresentação por causa da chuva de granizo.

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Whitesnake

Depois que a chuva de granizo terminou, a organização do evento obviamente levou um bom tempo para limpar e enxugar o palco, que estava coberto de pedras de gelo. O vocalista do Whitesnake, David Coverdale, postou inclusive um vídeo de cima do palco mostrando o momento no qual o Europe encerra o show. Na gravação, é possível ver claramente a quantidade impressionante de gelo que estava se acumulando no palco.

Em seguida, a fábrica de hits chamada Whitesnake pisou no palco. Após a introdução com “My generation”, do The Who, David Coverdale (vocal), Reb Beach e (guitarras), (baixo) e Tommy Aldrich (bateria) abriram o show com “Bad boys”, “Slide it in” e “Love ain’t no stranger”.

Por causa do atraso provocado pela tempestade que interrompeu o show do Europe, o setlist do show foi mais enxuto, mas marcado por grandes sucessos, como “Here I go again”. Infelizmente, algumas músicas que estavam no repertório ficaram de fora, entre elas, “Ain’t no love in the heart of the city”.

Baladas inesquecíveis

Falar de amor é uma grande armadilha para muitas bandas, afinal, é muito fácil cair na mesmice. Nesse contexto, Coverdale é um dos compositores/vocalistas que melhor conseguem escrever e interpretar muitas letras que abordam o universo de amor e ódio das paixões avassaladoras.

Entre essas composições estão “Love ain’t no stranger”, a eterna trilha sonora dos comerciais dos cigarros Hollywood, e “Is this love”, canção que embala gerações de apaixonados há mais de três décadas. Poucas músicas retratam tão bem o clima dos anos 1980 quanto essas duas faixas.

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Respeito

David Coverdale continua sendo um gentleman, pois faz questão de estabelecer uma conexão com o público em todos os shows da banda. Porém, no show em Curitiba, o vocalista deu uma demonstração ainda mais direta desse respeito pelos fãs.

Mesmo debaixo da tempestade que caía na Pedreira, Coverdale fez questão de cantar praticamente durante todo o show na passarela que ficava em frente ao palco, bem mais perto do público.

Enquanto a banda ficou abrigada embaixo da cobertura do palco, David não deu a mínima para a chuva, mostrando um respeito pelos fãs que pouquíssimos artistas têm, ainda mais no mundo atual, repleto de pseudocelebridades.

34 anos de história

A ligação do Whitesnake com o Brasil foi eternizada no primeiro Rock in Rio, em 1985. Naquela ocasião, o grupo de David Coverdale foi incluído de última hora no line-up do festival por causa do cancelamento do show do Def Leppard. Isso aconteceu porque o baterista do Leppard, Rick Allen, sofreu um grave acidente de carro e teve que amputar o braço esquerdo.

Com a fatalidade, o Whitesnake ganhou uma oportunidade única e o que se viu no palco da Cidade do Rock virou história. Ao lado dos virtuoso John Sykes (guitarra) e do já falecido Cozy Powell (bateria), Coverdale protagonizou duas performances (no primeiro dia do festival, ao lado do Queen e do Iron Maiden, e no último, com o AC/DC, o Scorpions e Ozzy Osbourne) que entraram para o hall das mais impressionantes da história do Rock in Rio.

A banda encerrou o show na Pedreira com “Burn”, um dos clássicos do Deep Purple. “Rever o Whitesnake em Curitiba, ainda mais na Pedreira, valeu cada pedrinha que atingiu a minha cabeça! O show foi curto, maravilhoso, com um setlist bem escolhido e com o Coverdale ensopado! Em solidariedade a nós, ele ficou na passarela, pegando chuva durante o show inteiro e nos embalando com sua voz única e carisma inigualável! Isso fez com que eu percebesse o quanto amo essa banda, e a tempestade que estava caindo foi só um toque para deixar esse show inesquecível!”, diz a bancária Márcia Donato.

O Whitesnake toca neste sábado (21), em São Paulo; na segunda-feira (23), em Uberlândia (MG); na quarta-feira (25), em Belo Horizonte; no sábado (28) no Rock in Rio, e na terça-feira (1), em Porto Alegre. Confira o vídeo de “Love ain’t no stranger” gravado ao vivo no show do Whitesnake da Pedreira e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Whitesnake - Pedreira Paulo Leminski - 18/9/2019

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Scorpions

A banda alemã Scorpions encerrou a noite. Klaus Meine (vocal), Rudolf Schenker e Matthias Jabs (guitarras), Paweł Mąciwoda (baixo) e Mikkey Dee (bateria) abriram o show com “Going out with a band”, “Make it real” e “Is there anybody there”. O setlist do show ainda contou com músicas que retrataram boa parte dos mais de 50 anos de vida do Scorpions, como “The zoo”, “Cath your train” e “Delicate dance”. Em “Send me an angel”, a banda foi para a passarela em frente ao público e executou a canção usando instrumentos acústicos.

“Essa canção, para nós, acabou se tornando uma música pacifista”, disse Klaus antes da belíssima “Wind of change”, um dos momentos mais marcantes do show. Realmente, a canção foi escrita como uma ode à queda do Muro de Berlim, em 1989, que mudou a configuração geopolítica da Europa de maneira profunda. O mais impressionante é que, para quem conhece a história desse tipo de canção, é espantoso perceber que, quanto mais velhas elas ficam, mais importância elas adquirem.

O inusitado é que, no início da música, Klaus começou a cantar em cima dos acordes errados, como se não estivesse ouvindo os instrumentos. Mesmo assim, a banda não parou a música e, logo em seguida, o vocalista retomou o andamento correto.

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O espírito do Rock’n’roll

Klaus Mine fez questão de agradecer ao público que permaneceu até o fim dos shows mesmo debaixo de chuva. “Vocês são verdadeiros guerreiros por continuarem aqui”, elogiou o vocalista.

Após “Blackout” e “Big city nights” (que aborda dois assuntos que sempre fizeram parte da mais pura essência do Rock’n’roll, mulheres e diversão), a banda saiu do palco. Na sequência, na volta para o bis, o grupo tocou o clássico “Still loving you”, em outro momento da noite que ficará marcado como um dos mais emocionantes dos quase 30 anos de história da Pedreira Paulo Leminski.

“Rock you like a hurricane” encerrou a apresentação. “Achei impecável e notei que eles se esforçaram ao máximo para agradar ao público, em uma sintonia incrível! A chuva veio do nada muito rápido, não deu nem tempo de colocar a capa de chuva, pois logo começou a cair granizo e foi ficando mais intenso. Tentávamos proteger o rosto e a cabeça com os braços, mas não adiantava muito. Depois do susto, aguentar o frio e a chuva ficou fácil. Fiquei com vários hematomas, mas valeu cada segundo. Sem contar que no final do show eu consegui pegar uma das últimas baquetas que eles jogaram do palco! Vê-los tão de perto foi muito emocionante! Foi um sonho realizado, um show memorável que vai ficar para sempre na minha memória!”, diz a designer de moda Estela Ronconi.

Confira o vídeo que mostra alguns momentos do show do Scorpions, gravado ao vivo na Pedreira, e veja também o álbum de fotos da apresentação.

Scorpions - Pedreira Paulo Leminski - 18/9/2019