Texto: Marcos Anubis
Revisão e fotos: Pri Oliveira

29448289544_ccd1b2303d_o

Nos últimos anos, o mundo tem perdido inúmeros cantores e músicos de altíssimo nível. A morte de ícones do porte de Ronnie James Dio, John Lord, Lemmy e David Bowie vem deixando uma lacuna que não será mais preenchida. Diante desse cenário, assistir a monstros sagrados que ainda resistem ao tempo se torna, cada vez mais, uma obrigação.

David Coverdale está entre esses sobreviventes que continuam desfilando a sua arte pelos palcos de todo o mundo. Mesmo já não exibindo todo o alcance vocal que sempre o caracterizou, David continua tendo o essencial: alma. Assim, ele ainda é capaz de emocionar o público com suas performances.

Nessa sexta-feira (30), o Whitesnake se apresentou na nova Live Curitiba, antigo Master Hall. A “Greatest Hits World Tour” reuniu apenas clássicos criados nas quatro décadas de história do grupo. Logo quando pisou no palco, Coverdale já mostrou toda a sua nobreza britânica.

O início do show teve apenas cinco minutos de atraso, mas  no entendimento de David isso já era motivo para se desculpar. Ele apontou para o relógio, abriu os braços como que pedindo desculpas e saudou o público. A apresentação começou com “Bad boys”, seguida por “Slide it in”.

Na sequência, aos primeiros acordes do teclado de “Love ain’t no stranger”, a emoção tomou conta dos fãs que praticamente lotavam a Live. Mesmo quem não acompanha a banda ou não é muito interessado no mundo do Rock, certamente se lembra da propaganda dos cigarros Hollywood, na década de 1980, que tinha esse megassucesso do Whitesnake como trilha sonora.

Cobras

Em quase quarenta anos de banda, Coverdale sempre soube convidar excelentes músicos para tocar ao seu lado. Inúmeros talentos passaram pelo grupo, entre eles os baixistas Neil Murray e Rudy Sarzo, o baterista Cozy Powell e os guitarristas Steve Vai, Vivian Campbell, Adrian Vandenberg e Doug Aldrich.

Um desses instrumentistas, porém, se tornaria o principal pilar e ajudaria a definir o som da banda. Essa mudança aconteceu em 1984, quando o guitarrista John Sykes recebeu um convite irrecusável e deixou o Thin Lizzy para se juntar a Coverdale. Com sua técnica e criatividade, Sykes forjou as características que se tornariam as marcas principais do som do Whitesnake.

A formação atual do grupo tem David Coverdale (vocais), Reb Beach e Joel Hoekstra (guitarras), Michael Devin (baixo), Michele Luppi (teclados) e Tommy Aldridge (bateria).

Lembranças de um momento histórico

“Boa noite, Curitiba. Tudo bem? Vamos voltar ao Rock in Rio”, disse Coverdale antes de “Ain’t no love in the heart of the city”. O show citado por David foi um dos mais marcantes da história do Rock. Diante de mais de 200 mil pessoas, o Whitesnake teve uma performance histórica, naquela que talvez tenha sido a maior apresentação de sua carreira.

Esse golpe do destino (pois a banda acabou sendo confirmada em cima da hora, vindo para substituir o Def Leppard depois do acidente em que o baterista Rick Allen perdeu um de seus braços), transformou a carreira do grupo.

Os solos de John Sykes e a bateria do monstruoso Cozy Powell, falecido em 1998, ecoam até hoje na Cidade do Rock. O show está disponível no YouTube. Se você não conhece, vale muito a pena assistir. Absolutamente inesquecível.

Proximidade com os fãs

Para os fãs, um dos momentos mais emocionantes nas apresentações do Whitesnake sempre é a execução de “Is this love”. A música tem a cara dos anos 1980, com suas guitarras cheias de delay e seu refrão que não sai da cabeça. O setlist do show, como o nome da turnê já anunciava, reuniu músicas que foram importantes durante a carreira do grupo, entre elas “Crying in the rain”, “Judgement day” e “Slow an’ easy”.

Obviamente, como em todo show que se preze, todos os músicos tiveram espaço para seus solos. Destaque para Tommy Aldridge, que tocou até sem as baquetas, usando as mãos como se estivesse tocando percussão. Um monstro! Depois de “Here I go again”, o grupo se retirou do palco. A volta para o bis teve “Still of the night” e, encerrando uma noite especial, “Burn”, um dos maiores sucessos do Deep Purple.

Para quem é fã de Rock’n’roll, torna-se cada vez mais do que necessário assistir aos grandes gênios que criaram esse estilo amado por milhares de pessoas ao redor do mundo. Infelizmente, nessa sexta-feira, os curitibanos podem ter visto o Whitesnake pela última vez na capital paranaense.

O motivo é que a banda pode se retirar dos palcos após essa turnê. Se a última imagem é a que fica, só restam aplausos para Coverdale e seu legado.

29962169912_694e204b74_o

O poder da música

Um dos “lemas” do Cwb Live sempre foi o de que a música pode mudar a vida das pessoas. Eis que, antes da apresentação, nós tivemos uma prova perfeita dessa máxima. O executivo de vendas Glauco Souza (34), que é de Brasília mas mora em Curitiba, estava na Área VIP carregando um “kit”, no qual havia uma camiseta e uma carta de agradecimento muito especial que ele pretendia entregar ao Coverdale.

Essa ligação com a banda começou ainda na infância dele. Glauco acompanha o Whitesnake desde a década de 1980 e descobriu o grupo por meio de seu pai. “Eu os conheci ainda na infância, aos seis ou sete anos, ouvindo os LPs com meu pai. Ele sempre foi encantado por bandas como Scorpions, Bon Jovi e Iron Maiden. Quando saiu o álbum de 1987, ele comprou e levou para casa. Já no primeiro acorde de ‘Still of the night’, imediatamente eu me senti diferente e especial!”, conta.

Mal sabia ele que, muitos anos depois, com o lançamento do álbum “Good to be Bad” (2008), Coverdale e sua banda seriam importantíssimos para reerguê-lo em um momento difícil. “Eu encontrei esse álbum por acaso na internet, em alguma matéria nos sites de Metal. Eu estava muito para baixo, desacreditado da vida e, principalmente, sem amor-próprio. Achava que eu seria uma pessoa triste e infeliz pelo resto da vida, tendo em vista minhas tentativas frustradas de ser bem-sucedido. Não no sentido milionário da coisa, como uma obsessão, mas no de ter uma boa e abundante qualidade de vida, entende? Também estava endividado e vinha de uma traumática falência”, relembra.

Não só pela parte musical, mas principalmente pelas letras, o álbum acabou sendo muito importante nesse momento da vida de Glauco. “Quando ouvi as músicas ‘Can you hear the wind blow’, ‘All for love’ e, principalmente, ‘Call on me”, eu saí do abismo para reviver com as chamas nos olhos!”, diz. “A partir desse momento, minha vida começou a se equilibrar novamente. Com a ajuda de amigos, de forma direta ou indireta, consegui um novo emprego, mais rentabilidade e retornei à música cantando Hard Rock”, complementa.

No show em Curitiba, durante “Slow an’ easy”, Coverdale apontou para Glauco e fez questão de estender a mão e pegar o presente. O texto da carta começava assim: “Algumas pessoas fazem tributos a artistas que não estão mais aqui. Eu quero lhe homenagear porque você está vivo! E preciso, por meio destas palavras, dizer-lhe a importância de sua pessoa, suas músicas e letras na minha vida”.

Ao presenciar uma atitude como essa, David Coverdale deve estar convencido de que a carreira do Whitesnake, sua música e sua arte, valeram muito a pena. Assista a três músicas do show: “Is this love”, “Love ain’t no stranger” e “Slow an’ easy”