Texto: Marcos Anubis
Fotos e revisão: Pri Oliveira

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Poucos artistas brasileiros conseguem fazer um show de aproximadamente duas horas composto apenas por grandes sucessos. Zé Ramalho está nessa seleta lista de privilegiados. Desde o seu primeiro disco solo, “Zé Ramalho” (1978), que já trazia pérolas como “Avohai” e “Vila do sossego”, o cantor, músico e compositor paraibano não parou de lançar álbuns que se tornaram parte da discografia básica da MPB.

Nessa sexta-feira (5), no Teatro Positivo, em Curitiba, Zé Ramalho apresentou boa parte desses sucessos no show “40 Anos de Carreira”. Com o teatro praticamente lotado, Zé abriu a apresentação com uma versão de “O que é, o que é”, do falecido Gonzaguinha, seguida por “Tá tudo mudando” e “Táxi lunar”.

Acompanhado pela Banda Z, composta por Vladimir Sosa (teclado), Chico Guedes (baixo), Toti Cavalcante (sax e flauta), Zé Gomes (percussão) e Edu Constant (bateria), Zé seguiu o show com “Kryptônia” e “Entre a serpente e a estrela”.

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Um mergulho no universo de Zé Ramalho

Zé Ramalho sempre teve, e fez questão de cultivar, uma imagem meio “messiânica”, utilizando letras que abordam temas como religião, lendas e esoterismo de forma magistral. A forma de cantar, que descreve as letras das canções de maneira realista, faz com que Zé seja costumeiramente comparado a Bob Dylan. “Pode ser que ninguém me compreenda quando digo que sou visionário. Pode a Bíblia ser um dicionário. Pode tudo ser uma refazenda”, diz a letra de “Canção agalopada”, que retrata bem o estilo de compor de Zé Ramalho e que, infelizmente, acabou ficando fora do repertório da apresentação em Curitiba.

É preciso pensar para entender e assimilar as letras de Zé Ramalho e essa é uma característica dos grandes artistas. Um belo exemplo dessa maneira de compor é a canção “A terceira lâmina”, que foi um dos grandes momentos da apresentação.

Outro ponto alto do show foi “Eternas ondas”, com sua letra profética. Essa música foi composta no início dos anos 1980 especialmente para o Rei Roberto Carlos. Zé acreditava que ela era perfeita para a voz de Roberto, mas o Rei não quis gravá-la porque, ao que consta, achou a letra muito carregada de imagens “apocalípticas”. A canção acabou sendo um grande sucesso na voz de Fagner e se tornou uma presença essencial nos shows de Zé Ramalho.

Em “Avôhai”, Zé foi para o lado esquerdo do palco e tocou a introdução da música envolvido por uma luz azul fortíssima que criava um espectro em meio à luminosidade. Na sequência, “Admirável gado novo”, com sua letra crítica que retrata de forma muito fiel algumas características marcantes do povo brasileiro, foi cantada por todo o Teatro Positivo.

No repertório da apresentação, Zé ainda incluiu versões para “Gita” e “Tente outra vez”, de Raul Seixas. Algumas músicas importantes como “Mistérios da meia-noite”, “Dança das borboletas” e “Batendo na porta do céu” ficaram de fora, mas diante de uma carreira que já dura quatro décadas, isso acaba sendo inevitável.

Depois de “Frevo mulher”, Zé se retirou brevemente do palco e voltou para cantar a belíssima “Sinônimos”, que se tornou um grande sucesso na versão gravada pela dupla sertaneja Chitãozinho & Chororó.

Zé Ramalho e a Banda Z encerraram o show com “A vida do viajante”, de Gonzagão. Artistas que ainda carregam uma aura de respeito com o seu próprio trabalho são essenciais para manter a qualidade de qualquer cena musical. Hoje, com a futilidade que impera no mercado fonográfico brasileiro, muitos acabam se desconectando do público, consciente ou inconscientemente. Zé Ramalho ainda consegue manter esse elo, e os fãs que o acompanham desde 1978 entendem que música e letra caminham juntas na obra desse eterno contador de histórias.

Confira a música “Kryptônia”, gravada ao vivo no show de Zé Ramalho no Teatro Positivo e veja, também, o nosso álbum de fotos da apresentação.

Zé Ramalho - Teatro Positivo - 05/10/2018