Texto: Marcos Anubis
Fotos: Marcos Anubis e arquivo Beijo AA Força

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“Não haverá mais remédios. Os belos serão os bélicos. Elmos no lugar de cérebros. O ferro-velho tomará os cemitérios”. A letra da música “Homem de Ferro”, do Beijo AA Força, escrita pelos poetas Marcos Prado e Sergio Viralobos, corre o risco de ter sido psicografada, tamanha a riqueza de imagens com que parecia descrever a tarde deste domingo (2) no Curitiba Rock Festival, que está sendo realizado no estacionamento da Câmara Municipal de Curitiba.

O show do BAAF, um dos mais criativos e importantes nomes da história do rock curitibano, fecharia o segundo dia do festival. Pouco antes da banda entrar no palco, cinco pessoas foram esfaqueadas em meio a uma briga entre punks e skinheads fora do local do evento, na Praça Eufrásio Correia.

Visivelmente preocupado com a situação, o quarteto iniciou a apresentação com a já citada “Homem de Ferro”, que praticamente descrevia o momento. A formação do BAAF foi composta por Rodrigão (guitarra e vocal), Ferreira (guitarra), Renato Quege (baixo) e Mola Jones (bateria).

“Má Fase” e “Malandrão” vieram em seguida. O BAAF pertence a uma estirpe seleta de artistas nacionais que uniam música e letras no mesmo diapasão, se preocupando tanto com a qualidade das melodias quanto com o teor dos textos que as emolduravam. Após a canção “Penúltima”, Ferreira fez questão de citar o poeta Marcos Prado, falecido em 1996, que foi um dos grandes parceiros da banda. “Canção do nosso querido amigo Marcos Prado, ícone do underground curitibano. Outros tempos…”, disse.

O clima no show era de apreensão porque, com a falta de informação sobre o ocorrido, o público não sabia se a situação havia sido contornada. “No Tempo das Diligências” e “Exame de Admissão no Colégio Inferno” deram sequência à apresentação. Por conta dessa “bad vibe” e das brigas que ainda ocorriam fora do local, a organização do festival resolveu encerrar a apresentação prematuramente. “Em razão dos fatos que aconteceram aqui, está é a última música. Daqui a dez anos nos vemos novamente. Alguns já estarão mortos, quem sabe algum de nós, e aí nós não nos veremos novamente”, brincou Rodrigão. “Turning Japanese”, cover da banda inglesa The Vapors, encerrou a curta aparição do Beijo AA Força.

A satisfação em ter visto um dos maiores nomes de nossa música, ao vivo, só não era maior do que a indignação que ficou pelo fato do show ter sido encurtado por causa das “más notícias em série”, como diz a letra de “Má Fase”.

As aparições do Beijo AA Força

A briga que encurtou o show do Beijo AA Força, além de ser condenável sob qualquer ponto de vista, é ainda mais triste porque, nos últimos anos, o grupo tem feito apresentações pontuais em raríssimos momentos. “Nós somos uma banda que não existe, morta. É a minha definição para um grupo que não compõe e não ensaia mais junto. A gente só toca de vez em quando, por diversão e por dinheiro”, explica o guitarrista e vocalista do BAAF, Rodrigão. A oportunidade era única tanto para o público que já acompanha o trabalho do quarteto quanto para os jovens que ali estavam.

O Curitiba Rock Carnival foi a novidade da 15ª edição do tradicional festival Psycho Carnival, pois incluiu bandas fora do universo psychobilly, como o Motorocker e o Cadela Maldita, em shows gratuitos. Essa abertura, incorporando outros estilos musicais, é uma afirmação da importância do evento. “Quando o Rodrigo me disse que o Vlad tinha nos convidado para tocar, eu fiquei surpreso. Só depois fiquei sabendo que se tratava de um evento paralelo ao Psycho Carnival. A expansão do festival, abrangendo outros estilos musicais, consolida o sucesso do evento e atrai um público maior”, analisa o baixista do grupo, Renato Quege.

No último dia 8 de fevereiro o BAAF se apresentou no projeto “Álbuns Clássicos”, que é realizado no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Nele, bandas importantes na história do rock nacional tocam na íntegra seus álbuns mais marcantes. O Beijo AA Força executou o disco “Sem Suingue”, lançado em 1995.  “Foi bem interessante porque nós nunca tínhamos tocado aquele álbum inteiro”, conta Rodrigão. Por conta desse fato, o quarteto teve que redescobrir as melodias das canções. “Foi muito trabalhoso porque nós tivemos que aprender músicas que não tínhamos tocado ainda ao vivo”, complementa.

 

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A Contrabanda antes de seu show de estreia, em abril de 1982 (Foto – Reprodução/Facebook Contrabanda)

A história de um gigante

O Beijo AA Força surgiu em 1983, derivado de outro grupo importante na história do rock paranaense, a Contrabanda. “Na verdade, a precursora de tantos grupos como o BAAF, Maxixe Machine, Ídolos de Matinée, Sara 572 e talvez mais uns dois ou três projetos é a Contrabanda, que teve uma trajetória meteórica entre 1982 e 1983, e foi o tronco desta genealogia musical”, conta Quege.

A Contrabanda foi um dos precursores em misturar MPB e rock, atravessando o abismo que existia entre os dois estilos durante os anos 1980. O grupo, inclusive, acaba de lançar um álbum de inéditas chamado “Punk A Vapor”. Na esteira do novo trabalho, o artista visual Fábio Biondo está finalizando um documentário sobre a Contrabanda. “Quando o filme estiver pronto nós faremos um lançamento duplo em CD e DVD. A ideia de reunir todos os envolvidos no projeto em um mesmo palco, porém, vai depender muito da agenda de cada um”, revela Quege.

A busca pelo novo

De acordo com o baixista, a busca por um som cada vez mais original fez com que o BAAF mergulhasse fundo demais nas experimentações. “A ideia inicial era injetar alguns elementos da MPB e da world music no som punk do grupo. A meu ver, ocorreu um exagero aí que descaracterizou muito a sonoridade e dividiu definitivamente o público da banda”, analisa.

Esse espírito inovador rendeu também algumas formações pouco usuais.  “Já chegamos a tocar ridiculamente com dois bateristas, três guitarristas e um saxofonista. No ‘BAAF Ao Vivo’ tivemos a participação do Therciano, nos teclados. Neste caso, sim, enriquecendo o trabalho do grupo. É o meu álbum preferido”, opina Quege.

A “solução” encontrada pelos integrantes do BAAF foi dividir as composições em duas ideias de bandas distintas. “O que era mais punk ficou no Beijo AA Força e o que era mais samba, MPB ou rock ficou no Maxixe Machine. Essa foi a medida que a gente encontrou para acabar com essa esquizofrenia que existe na nossa turma, com o Maxixe e o BAAF”, brinca Rodrigão.

O músico acredita que o Beijo AA Força não é a “cereja do bolo” no trabalho de seus membros. Rodrigão ressalta, também, a obra do Maxixe Machine. “O Maxixe tem uma carreira sólida, com discos muito bons, como o “Barbabel”, que tem uma penetração boa dentro da crítica”, analisa.

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Rodrigão e o baterista Mola Jones (Foto – Marcos Anubis/Cwb Live)

A safra atual do rock curitibano

Curitiba viveu um “boom” de bandas nos anos 1980/1990. A cena musical da cidade abrangia vários estilos, do punk ao ska, sempre com criatividade. Esse cenário era alimentado por vários fatores como o selo Bloody Records e o bar 92 Graus, ambos do músico JR. O apoio também vinha da mídia com o tablóide cultural Caderno Fun do jornal Gazeta do Povo, comandado pelo jornalista Abonico Smith, e também pela rádio Estação Primeira, que tinha como um de seus programadores musicais o jornalista e músico Fernando Tupan.

Hoje, com todas as mudanças tecnológicas que o mundo atual oferece, o cenário parece não ser mais o mesmo. “O atual rock curitibano é muito passadista, fortemente influenciado por bandas que foram importantes nas décadas passadas, e pouco ousado. A fragilidade das letras também prejudica a construção de uma cena contemporânea mais vigorosa e consistente, musical e poeticamente falando”, diz Quege.

Para ilustrar o seu pensamento, o baixista conta um encontro recente com alguns músicos da cidade. “Outro dia eu encontrei uma piazada que toca Pink Floyd e nem sabe quem foi Syd Barrett. Pode? Nem perdi meu tempo perguntando se conheciam The Cribs ou se já tinham escutado King Krule. Mas, certamente, há gente interessante fazendo música por aqui, como Os Joanetes”, complementa.

Rodrigão acredita que o rock curitibano ainda produz vários artistas interessantes. “Acho que existem muitas bandas boas. Eu gosto muito do Lendário Chucrobillyman, das meninas do Audac e acho o Geovanni Caruso um gênio”, diz. O músico também cita vários grupos do cenário psychobilly da cidade, o mais organizado e forte do país, como Hillbilly Rawhide, Three Bop Pills, Sick Sick Sinners, Chernobillies, Kráppulas, Mistery Trio e Os Transtornados do Ritmo Antigo. Apesar dos elogios, Rodrigão também ataca o status quo da “arte” atual. “E tem aquela enganação de sempre lá, as bandas que fazem essa música boazinha, nova, que a minha geração não consegue engolir, muito. Mas ela tem lá o seu valor”, complementa.

Entre críticas e elogios, a banda parece não se sentir uma fonte de inspiração para as novas gerações do rock curitibano. “Acho que essa coisa de continuidade é uma grande bobagem. Na verdade a ruptura é melhor do que a continuidade”, diz Rodrigão. Os músicos da cidade, porém, sempre citam o BAAF como uma das grandes inspirações para o seus trabalhos autorais. “Uma coisa que eu acho engraçada é que, de vez em quando, algum velho chega pra mim e diz “pô, eu toco por sua causa, porque vi um show de vocês em 1983 e tal. Acho muito engraçado porque eu nunca toquei por causa de ninguém, a não ser os Beatles”, brinca.

O futuro do Beijo AA Força

Com uma história tão rica musicalmente, Rodrigão revela que a banda pode gravar um novo trabalho, em breve. “Um álbum novo eu não diria, mas eu e o Ferreira vamos fazer alguma coisa neste ano com o BAAF, não sei se com os outros caras da banda. Na verdade o Beijo AA Força teve várias formações, mas sempre comigo e o Ferreira”, conta. A dupla acaba de fazer a trilha sonora do filme ‘Deserto’, do diretor Guilherme Weber, que está sendo gravado. “Vamos usar algumas músicas dessa trilha, que nós compusemos com o Sergio Viralobos, e algumas músicas que nós temos, que não têm nada a ver com rock. Faremos mais uma maluquice esquizofrênica, e vamos usar o nome do Beijo AA Força para isso, quem sabe”, complementa Rodrigão.

A ideia de um novo álbum também é compartilhada pelo baixista Renato Quege. “Nosso público é diminuto. Mas, é engraçado encontrar as mesmas caras há tanto tempo e também é compensador conhecer gente mais nova que curte a nossa música. E, finalmente, a possibilidade dessas pessoas ouvirem um álbum de inéditas é infinitesimal”, finaliza Quege.

No dia 1º de junho a banda se apresenta em Curitiba no Museu Oscar Niemeyer (MOM), no lançamento do livro “Piada Louca”, do poeta e compositor Sergio Viralobos. Será mais uma rara oportunidade de ver o Beijo AA Força, ao vivo.

Confira três músicas da apresentação: “Homem de ferro”, “Má fase” e “Penúltima”.