Rogerio Skylab, a vitória da liberdade artística em meio ao pastiche musical do mundo moderno
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Skylab se apresenta neste sábado (27), no Stage Garden, em Curitiba
O mundo da música vem sendo conduzido cada vez mais por produtores e artistas que se submetem às inúmeras concessões exigidas para alcançar o “sucesso”.
Pouquíssimos têm a coragem de sair desse ciclo vicioso e caminhar de acordo com o que acreditam, musicalmente falando.
No Brasil, um desses “contraventores” é o cantor e compositor carioca Rogerio Skylab, que se apresenta neste sábado (27), no Stage Garden, em Curitiba.
O show faz parte da turnê de comemoração dos 20 anos do álbum “Skylab IV” (2003), trabalho que transformou Skylab em um dos artistas reconhecidamente mais criativos do Brasil. “Eu diria que foi a minha fase heroica porque eu estava construindo a minha carreira no peito e na raça. Lembro que cheguei com a minha banda no estúdio Rock House, em São Conrado, ao meio-dia, e saí à noite com o disco pronto”, conta.
O álbum acaba de ser relançado pelo selo goiano Monstro Discos em edições especiais em CD, vinil e fita cassete.
Como resultado da repercussão que esse resgate gerou nos fãs, toda essa movimentação acabou resultando na turnê que passa por Curitiba neste fim de semana. “Eu gosto de olhar para frente e acho que o artista contemporâneo tem sempre esse desafio. Existe uma tendência atual na música brasileira de ficar olhando para o passado. Entretanto, eu recebi muitos pedidos para relançar esse disco, que estava esgotado. Por isso, resolvi olhar para o meu passado. Vem sendo uma turnê muito bacana, estou viajando por todo o Brasil”, diz.

Entrevistas lendárias
Entre a década de 1990 e os anos 2000, Skylab participou de diversas edições do “Programa do Jô”.
Essas entrevistas, que se tornaram históricas e são algumas das mais visualizadas até hoje no YouTube, fizeram com que ele se tornasse conhecido no Brasil e, de certa maneira, foram o pontapé iniciam em uma trajetória que já dura 34 anos. “Acredito que lancei no Jô todo o meu decálogo, do Skylab I ao X, mas não pense que foi fácil. O meu trabalho começou com uma grande dificuldade porque, nos anos 1980/90, o grande objetivo dos artistas era entrar em uma grande gravadora”, explica.
Hoje, os grandes selos perderam muita força porque as novas tecnologias fazem com que as bandas consigam se autoproduzir e, bem ou mal, distribuir os seus próprios materiais.
Entretanto, até o início dos anos 2000, as gravadoras eram a única opção para um artista se lançar no mercado musical e isso era uma barreira quase intransponível para quem estava começando. “Era por meio delas que você tocaria nas rádios e seria bem recebido pelos jornalistas. Quando você não conseguia, tudo ficava mais difícil. Foi assim que se constituiu o artista independente que, naquela época, era um ET. O Programa do Jô foi a brecha que me apareceu dentro de um sistema totalmente fechado para o meu trabalho. Ele foi fundamental na minha carreira!”, conta.
Os primeiros passos da carreira de Skylab, que resultaram no álbum “Fora da Grei” (1992), foram muito influenciados pelo talentoso guitarrista e produtor Robertinho de Recife, que na época atuava como um elo entre os músicos independentes e os selos. “Eu estava visando as grandes gravadoras e o disco foi produzido nesse sentido. Acho que é um grande álbum, com uma sonoridade que até hoje é muito boa. Porém, eu não consegui o meu grande objetivo, que era entrar em uma grande gravadora” diz.
O álbum seguinte, “Skylab II”, é visto por ele como um marco de libertação que apontou o caminho que deveria ser trilhado. “No início dos anos 2000, eu percebi que o mercado estava mudando e resolvi fazer o disco de maneira independente. Ele foi gravado ao vivo no Hipódromo Up, na Gávea, um lugar que recebia muitos shows. Ali eu dei uma guinada, pois esqueci as grandes gravadoras e comecei a pensar na minha carreira e essa foi a minha libertação. Acho que eu estava certo, pois o futuro foi nessa direção. A música independente foi ficando cada vez mais forte, e as grandes gravadoras foram sendo enxugadas” reflete.
Desde o início, entretanto, uma coisa não mudou no trabalho de Skylab: a preocupação com a parte lírica.
Essa talvez tenha se tornado a maior característica dele e essa faceta tem muito a ver com a decisão de não se encaixar em um estilo musical específico. “Quando comecei, eu tinha um conceito artístico muito claro de liberdade, de trabalhar com múltiplos gêneros, como o Rock, MPB, Samba, Funk ou música latina. Isso faz parte da gênese do meu trabalho”, explica.
Nitidamente, essa postura de não construir amarras ditou o ritmo de tudo que Skylab produziu desde a tentativa inicial de assinar com uma major. “É muito triste ficar engessado em um estilo. A minha liberdade artística é conseguir transitar por gêneros diferentes. Quando eu vou cadastrar as minhas músicas no ECAD, eu classifico como MPB porque eu acho que ela, apesar dos pesares, permite transitar em gêneros diferentes”, complementa.
Outro ponto muito forte na carreira de Skylab é a capacidade de trabalhar com diversos músicos que estiveram ao lado dele nos álbuns e shows, mas ainda assim conseguir manter uma forte identidade nas composições. “Eu comecei a minha carreira ao lado do Alexandre Guichard, que tocava um violão muito nacional ligado ao Samba e à Bossa Nova, com uma batida muito própria. Após um tempo, eu comecei a achar que o violão, um instrumento muito importante no início da minha carreira, acabou se tornando redundante. Então, eu passei a usar guitarra, baixo e bateria, e o meu trabalho adquiriu um teor de Rock. Acho que me auto-produzi em 95% da minha carreira”, explica.
No Brasil, inúmeras bandas e artistas são chamados de “malditos”, nomenclatura que retrata alguém que possui um trabalho consistente que, por algum motivo, não se encaixa nas delimitações do mainstream. “O primeiro grande movimento histórico do underground brasileiro talvez tenha sido a Lira Paulistana, que a gente ainda chamava de música independente. Ainda que muitas pessoas me identifiquem como underground, eu tenho uma certa dificuldade de estabelecer esses conceitos porque parece que o underground foi uma coisa que não deu certo. Na verdade, isso é correto eu sou um exemplo porque queria entrar em uma grande gravadora e não deu certo”, diz.
Boa parte dos fãs inclui Skylab nessa lista, porém ele não acredita que se encaixa totalmente na essência desse nicho. “É como se o artista ‘maldito’ quisesse afirmar que é ‘maldito’. Não! Ele quer mostrar o trabalho dele! Eu não gosto de afirmar os termos ‘maldito’ ou ‘underground’ porque parece que o artista quer ser isso e, na verdade, ele quer um lugar ao sol! Eu não gosto de glamourizar essas palavras!”, critica.
Entretanto, Skylab faz questão de valorizar as pessoas que se encontram dentro desse contexto de resistência associado ao underground brasileiro, pois ele é formado por muitos batalhadores, entre eles, produtores e donos de casas de show.
Em Curitiba, o bar 92 Graus é um grande exemplo, pois está há 34 anos abrindo espaço para as bandas autorais da cidade.
Outro importante nome da cena independente parananense foi o criador do Tribo’s Bar, de Maringá, Antonio Batista de Souza Junior, o Juninho, que faleceu no início de junho.
Durante mais de três décadas, ele acolheu toda a cena musical do Paraná e também atrações nacionais, entre elas o próprio Skylab. “Eu toquei no Tribo’s e pouco tempo depois fiquei sabendo que ele morreu. Foi um cara que lutou a vida toda pelo bar e pelo Rock. Ele era considerado a figura que afirmava o underground na cidade. O underground tem essas figuras heroicas” elogia.

Personalidade
A “era da informação”, surgida com a popularização da internet, fez com que artistas, jornalistas, fotógrafos, atletas e outras figuras públicas tivessem que aprender a lidar com a “patrulha” que está presente em todos os lugares, principalmente nas redes sociais.
Mesmo diante dessa nova realidade do século XXI, na qual qualquer manifestação pode virar uma polêmica e levar a uma tentativa de “cancelamento” da pessoa, Skylab não tem o mínimo receio de dizer o que pensa, seja nas músicas ou nas entrevistas. “A patrulha ideológica é uma das coisas mais tristes de qualquer ideologia. É uma espécie de camisa de força, pois o artista precisa se enquadrar naquele universo fechado. É a neurotização da ideologia, quando ela mostra o seu lado mais vil. Eu não coaduno com esse tipo de postura, frequento programas bem diferentes, de esquerda e de direita, pois acho que o artista não deve se preocupar com isso”, finaliza.
Rogerio Skylab, acompanhado por João Pedro (guitarra), Rafael Zuccari (baixo) e Aécio Souza (bateria), se apresenta neste sábado (27), no Stage Garden, em Curitiba.
Os ingressos custam a partir de R$ 80,00 + taxa administrativa (4º lote, meia-entrada, com a doação de 1kg de alimento) e podem ser adquiridos na plataforma Articket.
A casa abre às 19h e o show começa as 21h. A classificação etária é de 16 anos (menores só entram se estiverem acompanhados dos pais ou responsáveis).
O Stage Garden fica na Av. Mal. Floriano Peixoto, 4142, no Prado Velho.
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