Gilberto Gil, na Arena da Baixada: uma noite de reverência e contemplação

O show da turnê “Tempo Rei” deve ter sido o último de Gil na capital paranaense 

“Veneração e respeito por coisas consideradas sagradas” e “meditação profunda e embevecida”. Esses são alguns dos significados das palavras “reverência” e “contemplação”.

Essas atitudes, tão raras no mundo atual, estiveram presentes de maneira muito forte no coração do público que praticamente lotou a Arena da Baixada, em Curitiba, nesse sábado (5), para assistir aquele que deve ter sido o último show de um dos maiores artistas do Brasil na capital paranaense.

Gil abriu a apresentação com “Palco”, seguida por “Banda Um” e a belíssima “Tempo Rei”, que dá nome à turnê.

Por meio do setlist, que incluiu “Drão”, “Refazenda” e “Expresso 2222”, os fãs foram convidados a embarcar em uma grande viagem, revistando várias fases das quase seis décadas de trajetória artística construídas por Gil.

Um dos momentos mais emocionantes foi “Cálice”, parceria de Gil com Chico Buarque que retrata fielmente os fatídicos anos nos quais o Brasil viveu sob a sombra nefasta da ditadura militar que matou, torturou e “sumiu” com milhares de cidadãos brasileiros.

Gil, Chico e Caetano, inclusive, foram alguns dos artistas “convidados” a deixar o país e viveram durante alguns anos no exílio por serem considerados “subversivos” (sic).

No telão, durante a música, foram exibidas imagens impactantes da violenta repressão dos militares contra as manifestações que pediam a volta da democracia.

Poesia e profundidade em letras que ensinam

Em “Não chore mais”, a atriz curitibana Marjorie Estiano pisou no palco para cantar ao lado de Gil e, visivelmente emocionada, ela aproveitou o momento com uma leveza impressionante.

Na contramão da aposentadoria que se avizinha, prestes a completar 84 anos, Gil tocou durante quase três horas em meio a uma noite fria, típica do inverno curitibano (fazia cerca de sete graus) sem perder a energia que ele sempre demonstrou.

As canções que Gil compôs nesses quase 60 anos de carreira rendem teses de mestrado, doutorado e afins. Afinal, a profundidade lírica dessas músicas mostra o que de melhor a língua portuguesa pode oferecer.

Para os que souberam absorver, essas pílulas de civilidade e empatia ajudaram a formar o caráter de algumas gerações de brasileiros.

Gil encerrou a apresentação com “Toda Menina Baiana”, fazendo o público presente na Arena da Baixada cantar junto com ele.

Antes do fim da canção, ele se despediu e saiu do palco, deixando a banda terminar o show sozinha.

Quando as luzes se acenderam, o público foi embora ao som de “Sítio do Picapau Amarelo”, tema da série que fez parte da vida de praticamente todos os jovens brasileiros nos anos 1970/80.

Gilberto Gil é uma entidade. Por mais que existam talentos nas novas gerações de músicos, ele e outros grandes nomes da MPB foram os responsáveis por definir os parâmetros que a música brasileira deveria ter.

Chegar a esse nível de qualidade, infelizmente, é praticamente impossível, pois o sarrafo foi posicionado muito alto.

Assim, essa última dança de Gil em terras curitibanas deixou muito nítido que nós estamos presenciando o fim de uma era, com a despedida de diversas bandas e artistas incomparáveis.

No mesmo dia, por exemplo, o Black Sabbath fez um show de despedida em Birmingham, terra natal da banda, encerrando a brilhante história dos criadores do Heavy Metal.

Para nós, meros mortais, resta o orgulho de ter presenciado boa parte da carreira desses gênios da raça que, em algum momento, caminharam entre nós.

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