Pat Metheny transformou a Ópera de Arame em um pedacinho do paraíso


“Acompanhado” apenas pelo genial Orchestrion, Pat deu uma aula de criatividade e técnica
O mundo atual não dá muitas brechas para que o ser humano se sinta conectado a algo maior. Afinal, a sede por guerras, ódio e poder acaba ofuscando qualquer conexão mais pura.
Felizmente, ainda existem momentos nos quais é possível fugir, mesmo que por alguns instantes, desse “Silent Hill” moderno.
Nessa quinta-feira (28), na Ópera de Arame, o público curitibano teve uma dessas raras chances durante o show do músico estadunidense Pat Metheny.
A apresentação faz parte do Circuito Primavera de Jazz, segmento da programação anual do Curitiba Jazz Sessions, um projeto que vem trazendo grandes artistas à capital paranaense.
Nas quase três horas de show, Pat evocou sons e texturas que já não são tão comuns na música internacional, onde o pensamento visionário dos filósofos Adorno e Horkheimer, de que a cultura viraria uma mercadoria, nunca fez tanto sentido.
Um dos momentos mais interessantes da apresentação aconteceu na parte final, quando Pat tocou algumas canções acompanhado pelo Orchestrion, uma parafernália impressionante criada por ele que inclui piano mecânico e bateria, todos tocados automaticamente por uma programação de computador.
A experiência de ver o Orchestrion ao vivo é surreal, pois o maquinário parece ter vida no palco. Em uma comparação ousada, é como se os “robots” do Kraftwerk tocassem Jazz. “São tantas formas de expressão vindas de uma única pessoa no palco, tirando tantos timbres diferentes, criando sons e camadas. Por um momento, eu queria ter a chance de entrar na cabeça de um cara desses para saber como ele visualiza e vai compondo essas coisas, se isso é construído pela razão ou é uma expressão pura de emoção e sentimento”, diz o músico e produtor Tersis Zonato.
Uma das fãs que estavam presentes na Ópera foi a psicóloga Joyce do Amaral Gurgel, que conheceu a obra musical de Pat por meio do álbum “American Garage” (1979). “Na época, eu tinha apenas três anos e ouvia o disco com meu pai. Depois, o incrível ‘Beyond The Missouri Sky (Short Stories)’ (1997) se tornou a trilha sonora nas viagens que eu fazia com ele, quando contemplávamos o céu estrelado e o nascer do sol ouvindo esse álbum ímpar”, conta.
No show na Ópera, Joyce mergulhou nessas lembranças familiares por meio da guitarra de Metheny, em um daqueles momentos que só a música pode proporcionar. “Ver e ouvir o Orchestrion Jam possibilitou um encontro nostálgico com a minha infância, com os lugares mais genuínos e profundos dessa relação com a música transcendental do Pat e os laços que unem pai e filha. Foi uma experiência incalculável de contemplação desse gênio da música!”, complementa.
Perto do encerramento, já de volta apenas ao violão, Pat emocionou o público com uma interpretação magistral de “Travessia”, um dos clássicos de Milton Nascimento, com quem colaborou na canção “Vidro E Corte”, do álbum “Encontros E Despedidas” (1985).
Ovacionado pelo público, que insistia em ver mais do gênio estadunidense, Metheny saiu e voltou para o palco nada menos do que sete vezes!
A iniciativa do Curitiba Jazz Sessions é digna de muitos elogios. Afinal, o Jazz é um estilo musical segmentado, voltado para uma parcela de fãs específica e muito bem informada.
Trazer artistas desse porte e apresentá-los a um público mais diverso é uma maneira sensacional de popularizar esse gênero marcado pela criatividade e formado por artistas que, acima de tudo, ainda acreditam na pureza da arte.

