Texto: Marcos Anubis
Fotos: Divulgação

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A cena musical curitibana do final dos anos 1980 até a metade da década de 1990 foi riquíssima. Naquele período, surgiram inúmeros grupos que, influenciados diretamente pelo som que vinha principalmente do Reino Unido, construíram praticamente do nada um cenário criativo que foi destaque em todo o Brasil.

Um dos expoentes daquela geração foi o Tods. Formado em 1993, a banda incorporou elementos do Shoegaze, do Guitar e do Indie Rock de maneira magistral. Unindo a melodia do Ride ao “barulho” das microfonias do The Jesus And Mary Chain e do Velvet Underground, o grupo fez história e continua mantendo uma legião de fãs até hoje. No dia 4 de outubro, o Tods se junta ao Pin Ups e ao Electric Heaven em um show no Jokers que promete reviver aquela época mágica na música curitibana.

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O início

A formação inicial do Tods tinha Daniel Fagundes (vocal), que também foi vocalista da Relespública e faleceu em um trágico acidente de carro em 1994, Fernando Lobo (baixo), Igor Amatuzzi (guitarra e vocal) e Rogério “Gor” Dziedzick (bateria). Após a morte de Daniel, Rodrigo “Paia” Elias assumiu a guitarra e o vocal e o Tods encontrou forças para seguir em frente.

Depois de alguns shows, entre eles a participação na 3ª edição do festival Bandas Independentes de Garagem (BIG), organizado por J.R. Ferreira do 92 Graus, Rodrigo “Thur” Rigoni assumiu a bateria e, a partir dali, o grupo iniciou a formação mais duradora da banda: Rodrigo Elias (vocal e guitarra), Igor Amatuzzi (guitarra, voz, trompete e sax), Fernando Lobo (baixo e backings) e Rodrigo “Thur” Rigoni (bateria). Hoje, o Tods também conta com o baterista Victor Schemes, que participa de alguns shows da banda.

Nesses 26 anos, o Tods passou por alguns períodos de hibernação, mas a banda nunca acabou de forma oficial. “Nós nunca encerramos as atividades. Tivemos algumas pausas, mas nunca terminamos o Tods. Para a gente, a banda é imortal! Sempre que estamos próximos fazemos questão de tocar”, diz Rodrigo “Paia” Elias.

Nesses intervalos, os integrantes do Tods participaram de alguns projetos. Fernando, por exemplo, montou a banda E.S.S. ao lado de Igor, que também lançou trabalhos solo e participou do OAEOZ e do Iris. Já Rodrigo “Thur” tocou com o Tamborines, em Londres. “Eu sempre fui o menos promíscuo (risos). Participei do Electric Heaven recentemente, tive uma banda chamada Lux Continental em Londres com o próprio Thur e o Alessandro (Copacabana Club, Audac) e toquei o meu projeto solo, Rod Oliver. Ainda faço algumas coisas, mas bem low-fi, só para mim e para os azulejos do banheiro (risos), diz “Paia”.

No repertório do show do Tods no Jokers, além de canções conhecidas do público underground, como “Smile” e “Everything”, a banda também vai mostrar uma música inédita chamada “Sentimento”.

A “Seattle brasileira”

Devido à quantidade impressionante de boas bandas que surgiram naquela época, Curitiba ganhou um momento de destaque como nunca teve até hoje. Um dos mais respeitados nomes da MTV, o VJ Fabio Massari, chegou inclusive a apelidar a capital paranaense de “Seattle brasileira”, justamente pelo fato da cidade ter se tornado um celeiro de artistas.

Além do Tods, a cena musical curitibana revelou vários excelentes grupos que navegavam na esteira do som britânico, entre eles, o Magog, o C.M.U. Down, o Vupland, o Dive e o U.V. Ray. Inegavelmente, essa foi uma época muito importante para a cultura na capital paranaense e alguns fatores contribuíram para que isso acontecesse. “Realmente, aquela época foi muito especial! Acho que, pelo fato da cena ser muito mais unida do que é hoje em dia, não havia separação por estilo. Pelo contrário, as bandas de todos os segmentos tocavam juntas e se apoiavam. Não havia rede social, então, tínhamos que estar nos lugares para saber o que estava rolando. Era mais corpo a corpo, mais caloroso, nós trocávamos demos com os amigos. Essa época foi muito rica, não tinha vaidade, era puro rock’n’roll!”, relembra.

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Quase três décadas de “barulho” e melodia

A discografia do Tods conta com as demos “Everything” (1995) e “Love and Cut Fingers” “1996”, as coletâneas “Borboleta 13” (1997), “Guitar” (1998), “Leite quente” (1995) e “Revista Trip” (1999), os EPs “They Could Meet” (1999), “Some Gas” (2006), e o ao vivo “Curitiba Sônica” (2009). O trabalho mais recente do grupo é o álbum “Live at Mylo” (2017) que traz algumas canções da década de 1990 que não haviam sido registradas anteriormente, gravadas ao vivo no estúdio Mylo.

Entre os shows mais marcantes na carreira do Tods está o no festival Leite Quente de 1995, no Centro Politécnico. “Foi um baita festival que reuniu bandas locais e de outros estados. Naquela ocasião, nós tocamos com o Low Dream, de Brasília. Tem um vídeo do festival com imagens do nosso show e que mostra muitos músicos conhecidos no meio do público, entre eles o Fábio Elias (Relespública) e o Coxinha (Os Catalépticos, Sick Sick Sinners, Hillbilly Rawhide). Aquele foi o primeiro festival que o Tods tocou e nos projetou para muita gente que conheceu a banda naquela ocasião. O setlist deste show no Jokers é inspirado no que tocamos naquela oportunidade”, relembra.

O Pin Ups, com quem o Tods tocará no dia 4, também já faz parte das histórias da carreira do grupo curitibano há muitos anos. “O show com o Pin Ups no Aeroanta de Curitiba em 1996 foi muito marcante e nos rendeu uma apresentação em São Paulo com o próprio Pin Ups e o Pelvs (RJ), no lendário Retrô. Naquela época, também tocávamos muito em Maringá e lá todos os shows eram sempre muito especiais, para um grande público que, não sei como, conhecia as nossas músicas a ponto de cantar junto. Nos sentíamos como rock stars. O show com o Makes Up (EUA), em 1997, também foi importante”, conta.

O Rock do século XXI

Obviamente, o mundo atual é muito diferente do que existia na época na qual o Tods foi criado. Apesar das facilidades que a tecnologia atual proporciona, como as plataformas de música digital e os home studios, a sensação é de que o público do período 1980/90 era mais fiel, pois acompanhava assiduamente os shows dos grupos curitibanos. “Pois é, esse é um problema que enfrentamos. Não temos mais o público fiel que tínhamos nos anos 1990, mas também somos um pouco relapsos com a tecnologia. Ficamos em um limbo, mas isso é culpa nossa. Nos desconectados do público jovem e acabamos dependendo muito da velha guarda que geralmente está casada, com filhos e mais caseira. É difícil juntar essa turma, mas isso não nos faz desistir, até porque tocamos para nós mesmos. Se os amigos acompanharem, está ótimo, mas ainda pretendemos chegar aos corações dos jovens”, afirma.

Para os integrantes do Tods, o show no Jokers também será uma celebração daquela cena tão importante para o underground brasileiro. “Vai ser muito legal tocar novamente com o Pin Ups após mais de 20 anos! Reunir aquela turma que prestigiava os nossos shows nos anos 1990 e rever amigos de velha data vai ser muito bom. Esperamos a presença da velharada, afinal, o espírito Shoegaze/Indie/Guitar nunca envelhece. Esse show é uma iniciativa do Tods porque, se não fizermos, ninguém faz, finaliza Rodrigo.

Serviço

Os ingressos para os shows do Tods, do Pin Ups e do Electric Heaven no Jokers, que acontece no dia 4 de outubro (sexta-feira), podem ser adquiridos no site Sympla (onde existe a cobrança da taxa de serviço da empresa no valor de R$ 2,50).

Os bilhetes também podem ser comprados no Jokers Pub, na Sonic Discos da Rua 24 Horas (Rua Comendador Araújo, 143, loja 14, Centro), e nas lojas Lucky dos shoppings Estação, Palladium, Ventura, Jockey, Plaza, Cidade, Polloshop e Portão.

As apresentações começam às 21h. O Jokers fica na Rua São Francisco, 164, no Centro.