Keep on rockin’ in the free world, o adeus a Helinho Pimentel
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Helinho Pimentel, um visionário. (Foto – Lex Koslik)
O empresário, criador da rádio Estação Primeira e do Parque Jaime Lerner, faleceu no último dia 30 de agosto
Corria o ano da graça de 1986… Em uma modesta casa no bairro Cristo Rei, um jovem começava a descobrir o mundo da música, descortinado subitamente em 1985, quando a primeira edição do Rock in Rio havia mostrado uma realidade que não estava tão em evidência para a minha geração.
Ver Freddie Mercury regendo o público, o Whitesnake com Coverdale no vocal e John Sykes na guitarra, Ozzy Osbourne cantando “Fly high again” ou os animadíssimos B-52s pulando e dançando ao som de “Private Idaho” gerou o seguinte questionamento: “Caramba, existe tanta coisa legal por aí, onde estão essas bandas que nós não conseguimos ouvir nas nossas rádios?”.
Porém, a família daquele adolescente não tinha um aparelho de som que captasse as ondas das rádios FM (a radiola, imponente peça de madeira ornamentada que foi desmontada pelo jovem destruidor de aparelhos eletrônicos, só sintonizava emissoras AM).
Por isso, para ouvir uma música, digamos, mais contemporânea, era necessário assistir aos programas da época, como o “Clip Clip”, da Rede Globo.
Por sorte ou destino, foi justamente ao mudar de canal para procurar algo interessante que esse adolescente acabou encontrando um barulho diferente em meio à estática e parou para tentar decifrar o que era aquele “poltergeist” televisivo.
Depois de alguns ajustes na antena do aparelho, elegantemente decorada com um enorme pedaço de Bombril para obter uma sintonia melhor, ele descobriu que se tratava de uma rádio chamada Estação Primeira funcionando em caráter experimental, como dizia a mensagem veiculada entre as músicas.
Alguns meses depois, já ostentando um “potente” aparelho de som 3×1 da Frahm (a marca genérica das grandes empresas de áudio da época), o dial do rádio foi literalmente travado no prefixo 90.1, com a emissora já funcionando a todo vapor, e não sairia dali nos nove anos seguintes.
O nome desse jovem era, e ainda é, Marcos Anubis…

A mítica logo da Estação Primeira. (Foto – Arquivo Marcos Anubis)
Um novo mundo
Eu me lembro perfeitamente de que, quando a Estação passou a fazer parte da minha vida e de meus amigos, aos poucos, nós passamos a conhecer o direcionamento artístico da emissora e soubemos que o responsável por toda aquela corajosa aventura era uma pessoa chamada Helinho Pimentel: automaticamente, ele virou nosso ídolo.
Afinal, descobrimos que ali existia alguém que pensava como a gente, recusando-se a reproduzir infinitamente os “sucessos do momento”, acreditando que levar aos ouvintes boa música de vários estilos transformaria a vida dessas pessoas por meio da arte. Bingo!
Essa atitude visionária formou uma geração de ouvintes em Curitiba, pois foi a Estação que nos deu a oportunidade de conhecer The Smiths, Sepultura, The Cure, Alice in Chains, Hojerizah, Picassos Falsos, Finis Africae e tantas outras bandas fantásticas que ouvimos até hoje. “Se uma música do Jorge Ben tocasse em uma rádio brega, ela não entraria na 90.1! O trabalho do programador era riscar a faixa jabá e ouvir uma atrás da outra até achar um lado B”, conta a locutora Margot Brasil, conhecida como uma das vozes mais marcantes da Estação.
Essa visão só deu certo porque a equipe que foi montada para colocar a rádio em funcionamento partilhava dos mesmos ideais. “Particularmente, eu adorava isso porque peitar sistemas e regras é muito, mas muito divertido. Não fazer o que as pessoas esperam que se faça é mais ou menos o que regia o Helinho, eu e a galera de forma geral na emissora”, diz Margot.
Nitidamente, a 90.1 foi muito mais do que uma simples rádio, pois influenciou de diversas maneiras a vida e os pensamentos dos ouvintes. “Quem pegou a Estação desde o período experimental tomou uma dose cavalar de ineditismo, coragem, subcultura e estilo que nunca existiu na história de Curitiba e em quase nenhuma cidade do Brasil. Olhando por cima, era o melhor do melhor em muitos termos. As músicas (e o próprio Helinho) não eram previsíveis”, explica a locutora.
Todo esse contexto revolucionário fez com que as pessoas que tiveram o privilégio de trabalhar na Estação vivessem muitas situações nas quais o sonho se sobrepunha à realidade. “Em uma madrugada em que eu estava treinando, apareceu o Helinho, do nada, junto com o Ian Gillan! Calmamente, ele me pediu para operar a mesa, conduzir a entrevista, e foi embora. Eu fiquei vidrada! Não conseguia acreditar naquilo, mas sabia que essa era a vida que eu queria para mim”, complementa Margot.
Outro momento inesquecível vivenciado na emissora foi em uma noite na qual a locutora Carla Benetti estava apresentando o “Rock de Primeira”, um dos programas mais marcantes da Estação e no qual a programação era selecionada por Helinho. “De repente, ele entrou berrando com a Louise no colo, a filhinha dele que tinha acabado de nascer: ‘Abre o microfone porque eu vou estrear a Louise no rádio’! Eu abri e ela chorou ao vivo. Esse era o Helinho”, conta.
Rock na Estação!
Com a consolidação da Estação, a rádio também começou a organizar alguns shows que se tornaram históricos. Um dos mais marcantes foi em 1988 na festa “Rock na Estação”, em comemoração aos dois anos da emissora.
O evento, realizado no Palácio de Cristal, no Círculo Militar, reuniu Defalla, Nenhum de Nós, Os Replicantes, Blindagem, Os Mulheres Negras e Ira! em uma noite antológica em função do line-up e de alguns acontecimentos que fugiram do controle da organização. “Esse show foi incrível! Nós tínhamos outra apresentação, acho que era em Minas Gerais. Estava tudo certinho porque era uma esquema muito bacana e profissional, tinha um jatinho esperando a gente depois do show para levar todo mundo a Curitiba. Só que, de repente, sumiu a chave do carro no qual estavam os nossos equipamentos! Todo mundo ficou desesperado porque o tempo estava passando, as coisas estavam no porta-malas do veículo e a gente não conseguia abrir! O horário do show no Círculo já estava estourado e aí alguém conseguiu abrir! Então, nós voamos literalmente para Curitiba”, contou o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, em uma entrevista concedida ao Cwb Live em 2020.
Entretanto, quando a banda chegou ao aeroporto Afonso Pena, os problemas continuaram. “Chegamos bem atrasados no aeroporto e eu lembro que, nessa época, existiam muitas lombadas no caminho até o centro da cidade e a gente tinha que passar devagar para não quebrar o carro! Sei lá, a cada 30 metros tinha uma lombada e isso fez com que a gente se atrasasse mais ainda! Nós chegamos no Círculo bem preocupados, achando que o público estaria vaiando! Porém, para a nossa surpresa, o ginásio estava lotado, com as pessoas sentadas e esperando a gente chegar”, complementa Scandurra.
Dois anos depois, em 1990, a Estação esteve envolvida na vinda da banda escocesa The Jesus And Mary Chain para tocar no mesmo local.
Formado pelos irmãos Jim e William Reid, o grupo estava em turnê com o álbum “Automatic” e era reconhecido como um dos grandes expoentes do som “guitar” em todo o mundo, estilo que influenciou fortemente a cena musical curitibana naquele período.
Quem não saiu surdo do Círculo por causa da microfonia das canções do Jesus e não ficou boquiaberto ao ver que os vidros do local resistiram a tudo isso (o ginásio não tem esse nome à toa, pois todas as paredes externas são construídas em vidro) não estava lá!
A Estação também foi a primeira emissora curitibana a abrir espaço verdadeiramente para os artistas curitibanos que sempre eram ignorados dentro da programação das rádios da cidade. “O Helinho foi fundamental na nossa história como banda de rock em Curitiba. Sem ele, não haveria nada nesse mar de ilusão da música. A Estação foi a primeira rádio a tocar nossas composições, com a Margot anunciando no microfone. Aquilo foi inesquecível e colocou a Relespública na vitrine”, conta o guitarrista e vocalista da Relespública, Fabio Elias.
A emissora encerrou as atividades em 1995, quando foi vendida e passou a levar ao ar a programação da rede CBN de notícias.
Dali em diante, ocorreram muitas tentativas de emular o que a 90.1 fazia, mas nenhuma delas chegou sequer perto da aura intocável que a Estação Primeira deixou para os ouvintes e que reverbera até hoje.

O início de um sonho chamado Pedreira Paulo Leminski. (Foto – Arquivo Público Municipal)
O nascimento da Pedreira Paulo Leminski
Em 1989, naquele turbilhão de emoções que a Estação estava oferecendo aos curitibanos, mais um desafio cruzou o caminho de Helinho.
Tudo começou quando o então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, fez um convite ao mesmo tempo ousado e irrecusável para que a usina de asfalto desativada localizada no bairro Abranches fosse transformada em um local que pudesse receber shows. “Não tem remuneração, só tem o trabalho. Aceita?”, perguntou Lerner.
A missão foi iniciada naquele mesmo instante porque, coincidentemente, em uma conjunção dos astros se alinhando em um momento perfeito, essa ideia já existia na cabeça de Pimentel desde o final dos anos 1970.
Naqueles tempos, uma turma formada por intelectuais, músicos e poetas se reunia regularmente para trocar ideias.
Um desses eventos foi justamente na casa de Helinho Pimentel, localizada em um terreno que acabava na beira da pedreira do Abranches, de onde eram retirados blocos de pedras usados em obras que aconteciam na cidade. “Nós chamávamos essas reuniões de ‘Encontro Viking’. Nesse dia, nós estávamos com alguns amigos, entre eles o Ivo Rodrigues (vocalista do Blindagem) e o Porcelana Smith (vocalista da banda gaúcha Bixo da Seda). Lembro do Helinho comentando que seria incrível fazer um show naquele local. Era uma previsão e um sonho que ele cultuava junto com o Leminski. Tempos depois, com o falecimento do poeta, isso acabou virando realidade quando o então prefeito Jaime Lerner abraçou a ideia da Pedreira Paulo Leminski”, conta o baixista da banda curitibana Blindagem, Paulo Juk.
Obviamente, a coragem demonstrada pelo idealizador da Estação Primeira para encarar a construção de uma obra gigantesca em um local onde não existia nenhuma estrutura não pegou os amigos de surpresa. “O Helinho era a pessoa mais rock’n’roll que eu já conheci! Energia pura, animação, criatividade, aquela urgência de fazer as coisas. Sempre em movimento, pensando no próximo projeto, com os olhos sempre voltados pro futuro, vendo coisas que a gente só ia entender anos depois. Talvez por isso ele tenha conseguido entrar para o time das pessoas que meu pai gostava tanto de ter por perto. Meio gêmeo, meio filho pródigo”, conta a jornalista Ilana Lerner, filha de Jaime Lerner.
O mais interessante nessa história é que a relação se desenvolveu espontaneamente, como se estivesse realmente fadada a acontecer. “Entre eles surgiu uma amizade instantânea, apesar da diferença de idade, de história, de passado, daquelas que só aparecem quando as pessoas se reconhecem um no outro. Dois visionários que se entendiam em sonhos que queriam realizar sempre na velocidade da luz. Foram inúmeras conversas e encontros sempre animados, criativos e felizes”, complementa Ilana.

Obras da construção do palco definitivo da Pedreira. (Foto – Arquivo Público Municipal)
Mãos a obra!
A partir do convite de Lerner, uma grande luta começou a ser travada para colocar o local minimamente em condições de receber shows.
O primeiro evento teste realizado na área foi o festival “Perhappiness”, em 1989, ainda com uma estrutura muito precária que mal acomodava bandas e público. “Era um simples palco de madeira no qual se apresentaram artistas que gravaram músicas e tiveram parcerias com o poeta, entre eles a Blindagem, Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, A Cor do Som, Fortuna, Marinho Gallera e Paulo Vítola”, diz Juk.
Alguns desses artistas, inclusive, usaram o bar que os integrantes do Blindagem tinham na época, o Penny Lane, perto das Ruínas do São Francisco, no Largo da Ordem, para ensaiar e se preparar para o festival.
No ano seguinte, na inauguração oficial da Pedreira, The Wailers, Os Paralamas do Sucesso e Gilberto Gil mostraram ao mundo que Curitiba havia ganhado um local que se tornaria icônico.

O palco da Pedreira no show da Anistia Internacional, em 1992. (Foto – Arquivo Público Municipal)
Segurança e pirotecnia
Porém, nesses primeiros shows, a estrutura disponível na época levava a soluções que seriam absolutamente impensáveis atualmente.
Uma das mais estranhas era a segurança dos eventos, que ficava a cargo da Chute Box (muay thai) e da Muzenza (capoeira), as duas academias de luta mais famosas da época na capital paranaense.
Parece irreal, mas, como a tecnologia utilizada para um evento desse porte ainda não estava disponível em Curitiba, a comunicação das equipes durante os shows era realizada por meio de foguetes! Sim, é isso mesmo que você leu.
Quando acontecia algum problema, o “segurança” que estivesse mais perto da ocorrência soltava um projétil, em meio ao público, para avisar ao restante da equipe que havia alguma situação a ser contornada.

Desde os primeiros shows, a população de Curitiba se apaixonou pela Pedreira Paulo Leminski. (Foto – Marcelo Costa/Gazeta do Povo – Arquivo Parque Jaime Lerner)
Uma relação de amor incondicional
É preciso ressaltar que, naquele momento, os grandes shows internacionais praticamente só aconteciam no eixo Rio-São Paulo. Portanto, colocar Curitiba nesse circuito fechado era uma missão que nove em cada dez pessoas considerava impossível.
A exceção nessa lista de incrédulos era justamente Helinho Pimentel. “Ele foi um agente cultural extraordinário da cidade de Curitiba, do Paraná e do Brasil! Nós devemos a ele a transformação da Ópera de Arame e da Pedreira Paulo Leminski em um parque de uso público, um espaço compartilhado com toda a população, mas de inspiração com a parceria público-privada”, diz o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca.
Porém, nem tudo foram flores na história da Pedreira, pois em 2008 o local foi fechado por uma decisão judicial e coube a Helinho a missão de resgatar esse espaço tão querido pelos curitibanos.
Dessa vez, isso só foi possível com o apoio do grupo DC Set (do qual Helinho era sócio), que assumiu a gestão do local em 2013, reabrindo a Pedreira em 2014 com um show do rei Roberto Carlos. “Ele foi um grande parceiro da cidade na transformação desses equipamentos do Parque das Pedreiras em um ativo cultural da capital do Paraná. Eu tenho orgulho de ter sido seu contemporâneo e companheiro em muitas iniciativas lá realizadas, seja por meio da Fundação Cultural de Curitiba, no tempo em que a nossa FCC era a protagonista dos espaços da Pedreira Paulo Leminski, seja depois que o local foi terceirizado ou privatizado”, complementa Greca.

Viper no palco da Pedreira Paulo Leminski, em 1994. (Foto – Arquivo Parque Jaime Lerner)
For those about to rock, we salute you!
Após a inauguração, aos poucos, a Pedreira começou a receber grandes shows internacionais.
O primeiro deles foi o do beatle Paul McCartney, em 1993. No mesmo ano, um evento muito especial mostrou que a Pedreira seria um palco para todos os estilos musicais. “Eu me lembro com muita alegria dos shows que nós vimos juntos por lá. Por exemplo, o grande espetáculo dos 300 anos da cidade, no dia 4 de abril de 1993, quando o grande tenor espanhol catalão José Carreras, junto com a Orquestra Sinfônica Brasileira, fez um concerto lírico de repercussão nacional e mundial. Depois disso, ele viria mais duas ou três vezes para Curitiba, tornando-se um amigo da cidade e um amigo pessoal meu e da minha Margarita (Sansone, esposa de Greca, falecida em 2024)”, diz o ex-prefeito.
No ano seguinte, a Pedreira foi palco de outro show histórico, dessa vez protagonizado por Ramones, Sepultura, Viper e Raimundos na “Acid Chaos Tour”.
Na ocasião, os shows do Viper (banda que estava fazendo sucesso até no Japão com o álbum “Evolution”) e dos Raimundos (um verdadeiro fenômeno no Brasil após o trabalho de estreia, autointitulado) aconteceram debaixo de um calor insuportável.

A “guerra de garrafas” na Acid Chaos Tour, em 1994, na Pedreira Paulo Leminski. (Foto – Marcelo Costa/Gazeta do Povo – Arquivo Parque Jaime Lerner)
Garrafas ao ar!
O público que estava lá lembra até hoje que, naquela bela tarde, a grande diversão dos jovens curitibanos, desacostumados a assistir atrações desse porte, era encher garrafas de água com a brita que pavimentava o piso da Pedreira e jogar para cima (coitado de quem estivesse embaixo do projétil).
Porém, essa epifania durou pouco, porque quando o Sepultura pisou no palco, desabou uma tempestade assustadora, com raios caindo muito perto do público, fazendo com que a banda fosse obrigada a encerrar a apresentação após tocar apenas cinco músicas. “Essa foi a única vez que a gente pegou uma tempestade dessa no palco! Nós tentamos tocar. Os nossos equipamentos estavam cobertos com plástico e os nossos técnicos estavam se protegendo, mas estava uma ventania muito forte, com raios caindo e uma chuva pesada. A Pedreira estava lotada com todo mundo tentando achar um abrigo. Ainda conseguimos tocar cinco músicas, e isso foi muito”, contou o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, em uma entrevista concedida ao Cwb Live em 2019.
Na época do show, o grupo estava se consolidando como uma das maiores bandas de metal do mundo, e a apresentação na Pedreira seria uma celebração desse sucesso. “Nós ficamos frustrados porque não conseguimos fazer o nosso show. Era a turnê do ‘Chaos A.D.’, uma das maiores da nossa história. Os shows em Florianópolis e Porto Alegre foram sensacionais porque nós estávamos em um momento muito forte mesmo. O nosso maior público naquela turnê foi na Pedreira e aconteceu tudo isso justamente no nosso show. Antes da gente estava tudo certo e depois o Ramones tocou tranquilo (risos)”, complementou Andreas.
Como é possível perceber, o guitarrista ainda guarda na memória aqueles momentos de tensão que nunca mais foram vivenciados pela banda nessa mesma proporção. “Eu acho que ficou marcado mesmo, e é uma coisa que não vai se repetir nunca mais. A gente podia ter cancelado tudo, não ter nem entrado no palco, o que na verdade era o certo a fazer porque estava muito perigoso. Na Europa já pararam uns dois ou três festivais por causa disso. Quando estão caindo raios, as pessoas vão para as barracas e depois que a chuva passa todo mundo volta. Enfim, rolou do jeito que rolou, nós tocamos as nossas cinco músicas e ficou marcado na história”, diz Kisser.
Em 1996, foi a vez do AC/DC colocar a Pedreira definitivamente no radar do Brasil e do mundo naquela que, até hoje, foi a única vez que Angus Young pisou na capital paranaense.
Nesse dia, no imaginário popular, cerca de 60 mil pessoas estiveram presentes, o que seria o recorde absoluto na história do local (tinha gente assistindo ao show de dentro do lago)! “O que dizer de uma apresentação que começa com ‘Back in black’ e termina com ‘For those about to rock’? Será inesquecível até o meu último dia de vida! Era a turnê do sensacional ‘Ballbreaker’, predecessor do ‘Razor’s Edge’, disco que recolocou a banda no topo do mundo! Foi disparado o melhor show que eu vi”, diz o empresário Onorio de Freitas.

Elton John na Pedreira, em 2017. (Foto – Pri Oliveira/CwbLive)
Rocket man
Outro show marcante na Pedreira aconteceu em 2017, quando Elton John tocou pela primeira e única vez em Curitiba, com abertura de James Taylor. “O grande músico inglês, com seu colossal piano de cauda, emocionou a todos os presentes e não queria sair do palco. Foi além do tempo previsto do show, pelo menos mais 50 minutos, tal o seu encantamento por estar na Pedreira Paulo Leminski”, lembra Greca.
Hoje, a lista de artistas internacionais que já se apresentaram na Pedreira é gigantesca e inclui David Gilmour, Kiss, Iron Maiden, Foo Fighters, Whitesnake, Scorpions, David Bowie, Judas Priest e Alice in Chains.
Some-se a isso a Ópera de Arame, que fica dentro do complexo do Parque Jaime Lerner e, desde sua inauguração, em 1992, já recebeu uma gama de espetáculos gigantesca, e você tem um equipamento cultural que poucas cidades do mundo podem se orgulhar de possuir. “O Helinho estimulou muito o uso da Ópera de Arame com o seu palco flutuante junto ao Rochedo da Fama, onde nós colocamos na pedra o nome de todas as grandes atrações que nos visitaram”, conta Greca.
Tudo isso se deve à coragem que Pimentel teve lá em 1989, quando acreditou que essa realidade seria possível mesmo quando todas as probabilidades estavam contra ele.

Vista aérea da Rua da Música. (Foto – Arquivo SECOM)
Rua da Música
A última realização concretizada por Helinho foi a Rua da Música, que une a Ópera de Arame à Pedreira Paulo Leminski, dentro do agora denominado Parque Jaime Lerner. “Essa foi a obra-prima dele, com o estúdio de gravação e os espaços extraordinários que ele nos deu com essa última construção que hoje já é um orgulho de Curitiba”, elogia Greca.
Inaugurado em julho de 2025, o local é um verdadeiro oásis cultural e conta com restaurantes, bares, o Memorial Leminski e um palco para shows no qual dezenas de artistas e bandas curitibanas se apresentam diariamente. “Com o Helinho, não tinha conversa perdida. Todas as vezes que a gente sentava para conversar era uma ideia nova, uma novidade que ele trazia. Quando colocou na cabeça que queria a gente na Rua da Música, ele não descansou até conseguir e não mediu esforços para que fosse viabilizada a nossa entrada lá. Ele já frequentava o bar e nos deu essa oportunidade única. Era um visionário, mais do que isso, um realizador e um grande amigo!”, diz o sócio-proprietário do Cão Véio Curitiba (uma das operações gastronômicas instaladas no local), Lucas Araujo.

Helinho Pimentel na inauguração da Rua da Música ao lado do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, e do vice-prefeito Paulo Martins. (Foto – Gilson Abreu/PMC)
Ecos da geração Pedreira
Uma das grandes atrações da Rua da Música é o Estúdio Geração Pedreira, local que conta com uma estrutura moderna, mas onde Helinho também fez questão de disponibilizar equipamentos que são verdadeiras relíquias.
A última aquisição foi o órgão Hammond B3 com gabinete Leslie, fabricado nos EUA entre 1943 e 1949, que pertenceu simplesmente ao guitarrista e vocalista do grupo Os Mutantes, Sérgio Dias.
O estúdio ainda está dando os primeiros passos, mas deve render muitos frutos para a cena local. “É um espaço que o Helinho sonhou que se tornasse um selo/gravadora para registrar a música paranaense”, diz Marielle Loyola, responsável pela coordenação artística/operacional do espaço.
Os turistas que visitam a Rua da Música também podem conhecer a história da Pedreira Paulo Leminski por meio da exposição permanente (que contou com pesquisa e entrevistas realizadas pelo jornalista Marcos Anubis, do Cwb Live) montada na parte externa do estúdio.
Toda essa cidade criada para e em favor da música segue o mantra que foi planejado por por seu idealizador: ressoar de diversas maneiras nos corações e mentes das pessoas que têm a oportunidade de conhecê-la. “O Helinho nunca faltou a Curitiba, sempre abriu os espaços para os nossos artistas, para a gravação de shows, o incentivo da cultura e do turismo por meio do uso dos vários palcos daquele complexo cultural que hoje se chama Parque Prefeito Jaime Lerner”, diz Greca.

Margot Brasil, Marielle Loyola, Marcos Anubis e Helinho Pimentel durante a construção da exposição Geração Pedreira. (Foto – Arquivo Marcos Anubis)
Amizades que se tornaram eternas
Fora a parte profissional que rendeu dividendos eternos para a cultura curitibana, o lado humano de Helinho também é muito ressaltado por quem conviveu com ele.
Entre esses companheiros de vida, poucos estiveram tão próximos quanto o músico, produtor e compositor Renato Ximú, com o qual ele compartilhou projetos e vivenciou diversas aventuras.
Uma delas aconteceu pouco antes do início da pandemia, quando os dois viajavam para Florianópolis, acompanhados pela filha de Helinho, Chandra.
Na ocasião, o carro no qual estavam acabou quebrando, mas o que poderia ser uma grande frustração se tornou um momento que ficou guardado na memória. “Nós abrimos um uísque e começamos a dançar no meio da estrada! Quando o guincho chegou, nós pegamos uma carona e nos hospedamos em um hotel na beira da rodovia. Estava todo mundo quebrado, mas, em vez de dormir, ficamos tocando violão com os malucos que estavam no local até umas seis da manhã. Demoramos uns três dias para chegar a Florianópolis! Poderia ter sido a viagem mais chata do mundo, mas a gente não reclamava de nada, só dávamos risada”, conta.
Chandra faleceu em 2021, fazendo com que Helinho precisasse de muita força para se reerguer das cinzas e seguir com os projetos que sempre nortearam a vida dele.
No setor operacional da Pedreira Paulo Leminski, também são muitos os relatos entre as pessoas que trabalharam com ele nos diversos projetos que foram criados e colocados em prática no local. “Foi o meu maior e melhor amigo! Só agradeço essa conexão genuína que foi intensamente vivida ao longo de 19 anos em que eu, como discípula, reconheço que tive um grande mestre que me deixou uma herança que nunca ninguém vai tirar: o conhecimento”, diz Bibi Barros, sócia de Helinho na nova versão online da Estação Primeira, que deveria entrar no ar nos próximos meses.
Uma das pessoas mais próximas de Helinho nessa relação de trabalho foi Marielle Loyola. Os dois se conheceram no início dos anos 1990 quando ela ainda quando era a vocalista da Volkana, a primeira banda de metal brasileira formada majoritariamente por mulheres.
Naquele período, quando vinha tocar na capital paranaense, a cantora sempre acabava sendo convidada a dar entrevistas na Estação e foi ali que a amizade nasceu. “Mais tarde, em 1997, quando voltei a morar em Curitiba, fui convidada a fazer um programa chamado ‘Geração Pedreira’, na Rádio 96 Rock, indicada pelo amigo DJ Soundman Pako. Dali em diante, realizei muitos projetos e sonhos fcom o Helinho, sempre com o foco de dar visibilidade aos artistas independentes locais e nacionais”, conta Marielle.
Marielle trabalhou com Helinho em diversas iniciativas culturais nos anos seguintes, entre elas a criação da rádio Mundo Livre FM e os festivais Lupaluna e Geração Pedreira.
Em 2014, com a reabertura da Pedreira, Marielle fez parte da primeira equipe que trabalhou no local, mas acabou sendo escalada para desenvolver os projetos iniciados na rádio Mundo Livre.
Em 2018, ela voltou a trabalhar na Pedreira, onde permanece até hoje. “Lá se vão quase 30 anos sonhando e realizando com esse grande mentor, amigo e gênio. Só posso agradecer por tudo que aprendi e pelo que fizemos juntos”, complementa.
Uma das grandes características de Helinho era a habilidade de transitar em todos os ambientes, de uma vila de pescadores em Santa Catarina até os ambientes frequentados por políticos e autoridades, algo absolutamente essencial para quem se propõe a realizar projetos.
Em todos esses círculos sociais, a maneira amável com que tratava todas as pessoas sempre era motivo de admiração. “Por trás daquela carapaça de roqueiro, o Helinho era pura gentileza e consideração. Sempre atencioso, com muitos mimos, demonstrando o carinho que sentia por quem quer que entrasse em sua órbita. Sorte nossa que pudemos conviver com ele, dividindo momentos tão especiais”, diz Ilana.
Com o Blindagem, banda pela qual Helinho tinha um carinho muito grande, não foi diferente.
No início dos anos 1980, quando trabalhava como empresário de alguns dos maiores nomes da MPB, entre eles Baby do Brasil (Consuelo, na época), Pepeu Gomes e o grupo A Cor do Som, ele usou esse conhecimento do showbiz brasileiro para abrir alguns caminhos para a banda curitibana. “O Helinho nos ajudou muito no Rio de Janeiro, não só com hospedagem, mas apresentando o nosso trabalho a vários produtores e artistas. O Garyba (Nerivaldo Pereira) e o Maringas (Newton Wesley) também tiveram um papel muito importante nessa época”, conta Juk.
Além do auxílio na parte empresarial, essa conexão com a banda que se tornaria a mais importante na história da música curitibana também rendeu duas grandes pérolas que foram gravadas pelo grupo e viraram sucessos atemporais. “Talvez muita gente não saiba, mas o Helinho é parceiro do Ivo Rodrigues em duas músicas icônicas do nosso repertório: a ‘Dias incertos’ e a ‘Loba da estepe’. Além disso, ele já esteve no palco com a gente nos shows de 40 anos, ‘Blindagem & Orquestra na Ópera de Arame’, em 2015, e no de 50 anos, no Festival Prime Rock de 2025, na Pedreira Paulo Leminski”, conta Paulo Juk.

Helinho Pimentel deixa um legado eterno para a cidade de Curitiba. (Foto – Lex Koslik)
Reconhecimento e legado
Em dezembro de 2025, como um reconhecimento por tudo que realizou pela cidade, Helinho recebeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná, em uma sessão solene na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP).
A morte de Helinho Pimentel, no último dia 30 de agosto por complicações causadas por uma pneumonia, cria uma lacuna que não será preenchida. Afinal, o mundo não costuma produzir visionários desse porte com muita frequência.
Na verdade, eles desembarcam neste orbe esporadicamente de tempos em tempos para transformar a realidade de pessoas e lugares, deixando uma marca permanente. “Ele nos deu o Parque Jaime Lerner e, se fosse só esse gesto, já seríamos devedores. Mas foi sempre mais, como ter a oportunidade de ver em uma pessoa toda a dimensão da amizade. Tenho certeza de que fica em todos nós um pouco dessa vontade de fazer mais e melhor, de realizar todos os projetos que ficaram, de ser um pouco Helinho na vida”, diz Ilana.
Realmente, a missão de preservar esse legado cabe a todos os profissionais que trabalham com cultura em Curitiba, de jornalistas a produtores.
Afinal, cada vez que um fã de música em Curitiba for assistir a um show na Pedreira ou em qualquer outro local, aquele sonho no qual Helinho acreditou, de que a capital paranaense se tornaria uma parada obrigatória de bandas e artistas de todo o mundo, seguirá se tornando realidade. “Morreu o homem e ficou a lenda, com seu legado importantíssimo para nossa música, arte e cultura. Curitiba não perdeu Helinho. Curitiba só ganhou com ele!”, afirma Fabio Elias.
Para a família de Helinho Pimentel, fica a saudade, mas também a certeza absoluta de que a missão de transformar a cidade de Curitiba em um polo cultural reconhecido internacionalmente foi plenamente cumprida. “Eu quero dar à memória do Helinho Pimentel o maior destaque como agente cultural, curitibano amoroso, paranaense entusiasmado e brasileiro defensor e sonhador da democracia. Margarita e eu tivemos nele um parceiro de todas as eleições e da vida inteira. Eu desejo às suas filhas e filhos, e também à sua viúva, a nossa querida e suave Celeste, que tenham a compreensão de que a vida é apenas uma passagem. Ela não nos é tirada, ela é transformada por uma dimensão excepcional”, finaliza Rafael Greca.
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