Texto: Marcos Anubis
Revisão e fotos: Pri Oliveira

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O A-ha pertence a uma casta sagrada do Pop. Na alquimia da banda, forjada na metade dos anos 1980 com seu álbum de estreia, “Hunting High and Low” (1985), teclados, sintetizadores, voz e guitarra possuem o mesmo peso. Isso faz uma gigantesca diferença no cenário cada vez mais artificial da música eletrônica atual, onde o pendrive virou o grande “músico”. A história do estilo mostra que o grupo foi um de seus precursores ao incorporar teclados e sintetizadores ao Pop, de forma criativa.

A apresentação do trio norueguês em Curitiba, que aconteceu no Master Hall nessa quinta-feira (15), mostrou que Morten Harket (vocais), Magne Furuholmen (teclados) e Paul Waaktaar (guitarra) souberam envelhecer e não vivem somente de seu passado. Continuar produzindo material inédito e manter a sua linha musical após exatos 30 anos do lançamento de seu primeiro álbum é uma grande vitória para qualquer banda com tanto tempo de estrada.

 

O show

 

“Cast in Steel”, música que dá nome ao mais recente trabalho da banda, lançado em 2015, abriu o show. Na sequência o grupo deixou a plateia aos seus pés com “I’ve Been Losing You” e “Cry Wolf”, dois de seus maiores clássicos.

Naquele momento a sensação já era a de estar presenciando um dos melhores shows que Curitiba já recebeu. O motivo? Simples: houve um tempo em que, para ser “Pop”, a música não precisava ser de baixa qualidade. Era possível unir bons músicos, boas letras e mesmo assim alcançar o grande público.

O A-ha era e continua sendo um desses exemplos. O Pop feito pelo trio é construído com ambiências na guitarra e nos teclados/sintetizadores que se unem para criar um som com personalidade. E isso ficou bem claro durante a apresentação. Todos os instrumentos eram ouvidos com clareza, assim como a voz de Morten Harket, o que dava a exata ideia do que é o trabalho do grupo norueguês.

Aqui, uma analogia pode ser feita. O século 21 é tão estranho que hoje o “sucesso” de um artista se mede pela quantidade de clássicos que ele consegue enfileirar em um show. Nem sempre isso é parâmetro para atestar a qualidade de um artista, mas no caso do A-ha essa máxima reflete bem a qualidade das canções da banda. “Stay On These Roads”, “Scoundrel Days”, “Crying in the Rain” e “You are the One” transformaram o Master Hall em uma enorme pista de dança e levaram às lágrimas os fãs mais fiéis.

O fato é que a palavra “espetáculo” pode e deve ser usada pra definir a noite que os simpáticos noruegueses proporcionaram aos curitibanos. Esse é um conceito antigo que, durante os anos 1970/80, foi sendo levado cada vez mais ao extremo. Os palcos, que normalmente só recebiam as bandas, foram sendo incrementados com luzes e som cada vez mais mirabolantes.

Na apresentação dessa quinta o A-ha também incluiu um belo set de luzes e um grande telão que exibia imagens durante todas as canções. Nada mais inteligente do que usar a tecnologia disponível atualmente, mas a realidade é que nada disso funcionaria se a obra da banda não se sustentasse por si só.

 

Simpatia e intimismo

 

Morten Harket poderia ter tranquilamente nascido em Curitiba pois tem a timidez característica dos filhos da capital das araucárias. Introspectivo, ele se dirigiu poucas vezes ao público, mas sempre com muita educação e simpatia. O cantor também chamou a atenção porque mantém sua voz no mesmo tom e com os mesmos falsetes do começo da banda, fato raríssimo para qualquer vocalista com tanto tempo de estrada.

Na sequência do show, um dos momentos mais emocionantes foi a belíssima “Hunting High and Low”. Durante a música, Magne pediu para o público cantar e o que se ouviu foi uma só voz entoando o refrão. Após o hit, a banda se retirou pela primeira vez do palco.

Essa foi uma canção importante não só na carreira do A-ha mas também na história da MTV que, na metade da década de 1980, estava se tornando a formadora de opinião que viria a ser posteriormente. O vídeo usava o que existia de mais moderno na computação gráfica da época e é até hoje um dos mais criativos clipes já produzidos.

Na volta, uma surpresa. O trio homenageou Curitiba em “Sun Always Shines On TV”, exibindo imagens da cidade (biarticulados, a Ópera de Arame e o Largo da Ordem, entre outros referenciais da capital) em três grandes aparelhos de TV estilo retrô que apareciam no telão.

Após “The Living Daylights”, tema do filme “007 – Marcado para a Morte” (1987), o grupo se retirou novamente do palco e voltou ovacionado pelos fãs para encerrar a apresentação com seu maior hit, a icônica “Take on Me”, com direito ao clipe exibido no telão.

O show em Curitiba foi o último da turnê sul-americana. O site da banda mostra que o grupo retoma as suas atividades somente no dia 6 de março com um show em Ekaterinburg, na Rússia. Até lá, Morten, Magne e Paul Waaktaar certamente se lembrarão do carinho com que foram recebidos em terras curitibanas.

A verdade é que melodias criativas, letras inteligentes, criatividade e uma veia Pop de qualidade sempre despertam bons sentimentos. O A-ha tem tudo isso e são esses motivos que fazem com que a banda se mantenha viva e admirada, 30 anos após os seus primeiros passos.

Confira três músicas do show: “Take on Me”, “The Sun Always Shines on TV” e “Hunting High and Low”.