A “estreia” de gala do Mundo Livre S/A na Ópera de Arame, após 42 anos de trajetória
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Fred 04, vocalista do grupo e um dos criadores da Manguebeat, fala sobre o show, a renovação do público e a forte conexão com a cena curitibana
Apesar de ter uma relação com Curitiba que vem desde a época do antigo Aeroanta, uma das casas mais icônicas que a capital paranaense já teve, no início dos anos 1990, a banda pernambucana Mundo Livre S/A nunca havia se apresentado no Parque Jaime Lerner, que engloba a Pedreira Paulo Leminski e a Ópera de Arame.
Após mais de quatro décadas, a estreia do grupo em um dos mais importantes espaços para shows da América Latina finalmente aconteceu nesse sábado (23), na 8ª edição do Festival Coolritiba, no palco da Ópera de Arame. “Nossos primeiros shows em Curitiba foram no saudoso Aeroanta, que era um templo da música independente. Desde então, nas várias turnês que fizemos, nós percorremos diversos espaços da cena alternativa. Lembro de um lugar bem charmoso, o Era Só O Que Faltava. Fizemos alguns shows históricos lá para esse público mais underground, mas a gente sempre ficava sacando as divulgações do que ia rolar na Pedreira. Para nós, quem chegasse ali naquele palco era porque meio que tinha furado a bolha”, conta o vocalista do Mundo Livre, Fred 04.
Antes do show no Coolritiba, a banda também já havia se apresentado pela primeira vez na edição paulista do Lollapalooza, um dos maiores festivais de música independente do mundo.
Por isso, o show na Ópera, que faz parte da turnê de comemoração dos 30 anos do álbum “Samba Esquema Noise” (1994), trabalho que apresentou a banda ao Brasil e foi muito importante na sedimentação da Manguebeat, seguiu o mesmo parâmetro definido pelo grupo para apresentações em grandes festivais. “Nós viemos com uma estrutura de show montada para eventos neste formato, com as imagens que produzimos para cada faixa e foram exibidas no telão de led, pensando na parte cênica também. Fizemos questão de trazer uma versão muito mais aprimorada do que a de um show normal do circuito underground”, explica Fred.
Aliás, nem a gélida tarde curitibana foi capaz de amedrontar a banda, devido a uma preparação muito bem conduzida antes de pisar no palco. “Falaram que a gente ia pegar uma frente fria, mas o meu ‘casaco’ foi uma dose reforçada de conhaque, porque eu gosto de sentir o clima. Na passagem de som, nós já vimos o quanto a estrutura do local é bonita e impecável no sentido de apuro técnico e de imagem”, diz.
Na apresentação, a banda recebeu o carinho do público curitibano que praticamente lotou o espaço, pois esses fãs mais antenados veem no Mundo Livre uma grande referência para toda a cena alternativa construída no Brasil a partir dos anos 1990. “Eu me surpreendi porque, como a Ópera tem essa proximidade com o público, a galera que estava em frente ao palco era muito mais jovem até do que os meus filhos, e todos estavam participando, interagindo! É muito massa estrear em um local como esse e ver que a sua música não estagnou, que ela está ampliando e saindo da bolha!”, diz.

Manguebeat, a última grande revolução
Formado em 1984 em Recife, capital de Pernambuco, o Mundo Livre S/A foi um dos protagonistas, nos anos 1990, do movimento Manguebeat, a última grande revolução surgida no cenário musical brasileiro, pois exerce influência no país até hoje, tanto na parte musical quanto na comportamental e estética.
Nessa época, Curitiba via o crescimento de uma cena que se tornou lendária na cidade e revelou bandas talentosíssimas, entre elas, Relespública, Magog e Resist Control.
Algumas, inclusive, como o Woyzeck e o Boi Mamão, traziam elementos nos quais os pernambucanos eram mestres, principalmente a capacidade de não se prender a um estilo específico.
Atualmente, essa conexão continua e o exemplo mais claro é a banda Machete Bomb.
Essa característica muito forte de valorizar os ritmos e a cultura do Nordeste, que o Mundo Livre sempre defendeu, estabeleceu um ele que segue sendo levado a todo o país.
Em 2026, por exemplo, além do Mundo Livre, Curitiba já recebeu apresentações de dois grandes nomes da cena cultural de Recife: os Devotos, que se apresentaram no festival Psycho Carnival, e o cantor, músico e compositor Siba (ex-Mestre Ambrósio), que realizou uma mini-turnê composta por quatro shows na Caixa Cultural. “Eu acho que não é por acaso que esses artistas estão conseguindo circular com mais visibilidade nos últimos tempos e isso não é só na música. Há muito tempo não aparecia uma produção brasileira com tanta consagração internacional quanto o filme ‘O Agente Secreto’. É uma reconstrução de uma estrutura que envolve, inclusive, investimento governamental, a questão de retomar editais e o Ministério (da Cultura) que havia sido sucateado. Fazia muito tempo que nós não tocávamos na Europa, por exemplo, e consguimos ir no ano passado, para a França e Portugal, por meio de um edital federal”, analisa.
Na visão de Fred 04, o envolvimento dos artistas pernambucanos vai além da parte musical, pois também abrange o dia a dia do cidadão brasileiro. “Eu acho que essa cena de Recife está associada a uma concepção de resistência antifascista que foi um dos motores dessa reconstrução de um aparato de investimento maciço na cultura. Nós fazemos questão de levar, em todas as oportunidades, essa mensagem de que o Nordeste é parte fundamental dessa reconstrução da nação brasileira, da reafirmação da democracia e de um compromisso cidadão de resistir a todas essas tentativas de retrocesso”, complementa.

Longe demais das capitais
No início dos anos 1990, a frase “longe demais das capitais”, título no álbum de estreia dos Engenheiros do Hawaii, lançado em 1986, fazia total sentido para os habitantes de Curitiba.
E era justamente essa aura underground que impressionava as bandas e artistas de todo o Brasil quando vinham tocar e acabavam conhecendo um pouco do que a capital paranaense tinha a oferecer não só na parte cultural, mas também estruturalmente. “Desde as nossa primeiras turnês, eu sempre admirei Curitiba porque é uma cidade que tem vocação de vanguarda. As referências intelectuais e culturais são de coisas visionárias, até na arquitetura e no urbanismo. Eu lembro das primeiras vezes que eu vi as estações tubo e as faixas exclusivas de transporte coletivo. Isso sempre me impressionou”, elogia.
Essa relação de amizade e respeito se fortaleceu muito nessas mais de quatro décadas de estrada do Mundo Livre, pois o grupo teve diversas oportunidades de tocar e conviver com bandas curitibanas.
Uma dessas ocasiões, entretanto, ficou marcada mais fortemente na lembrança de Fred. “Eu nunca vou esquecer que, naquele período, ainda sob a influência do (selo) Banguela, por onde foram lançados os nossos primeiros discos, o Miranda (produtor) conhecia muita gente bacana do Paraná. Eu tive uma amizade grande com a galera do Boi Mamão e vi um show, no auge da efervescência criativa deles, não lembro aonde foi, que era o conceito ao vivo mais foda que já tinha visto! Eu já tinha assistido ao Itamar Assumpção e outros artistas, mas nunca tinha havia visto um show brasileiro com uma pegada instrumental tão contagiante!”, conta.
Entretanto, fora da conexão musical com os artistas curitibanos, o Mundo Livre viveu (ou tomou conhecimento) de outras situações, no mínimo, inusitadas. “O coordenador de uma dessas casas de show que a gente frequentou na época me confessou que, quando ele teve uma loja de discos, ganhou muita grana vendendo discos piratas do Mundo Livre (risos)! Os CDs das bandas alternativas, principalmente, tinham uma uma tiragem muito limitada e elas ficavam quase que totalmente em São Paulo. Os nossos primeiros álbuns tiveram no máximo 8 mil cópias, então, a gente ia tocar em outras regiões e não tinha disco para vender. Por isso, eu dei um abraço nesse cara e agradeci por ele ter pirateado tanto (risos)”, finaliza Fred 04.
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