Texto: Marcos Anubis
Fotos: Pri Oliveira

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Várias bandas foram muito importantes na construção do Rock brasileiro, mas poucas mantêm a mesma essência até hoje, preservando as influências que mostravam quando surgiram. Um desses sobreviventes é o grupo paulista Ira!, que se apresenta no sábado (12) no festival Rock’n’road, na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba. O evento ainda contará com shows das bandas Raimundos e Motorocker, além dos cantores, músicos e compositores Frejat e Marcelo Falcão, ex-Rappa.

Além das atrações no palco principal, o Rock’n’road também terá um palco montado pelo Hard Rock Café no qual se apresentarão as bandas curitibanas Punkake, República Pine, BOR e Rock Bugs (além do grupo vencedor do Viva Rock Latino, festival que envolve toda a rede Hard Rock para escolher a melhor banda da América Latina, e o ganhador do Festival Canta Curitiba).

O debut no templo da música curitibana

Incrivelmente, em quase quatro décadas de estrada, essa será a primeira vez que o Ira! se apresentará na Pedreira Paulo Leminski. “Eu acho incrível que o Ira! nunca tenha tocado na Pedreira! Tudo bem que ela ficou muito tempo desativada, tem toda essa situação. É um palco, um templo de shows históricos e só por levar o nome do Paulo Leminski ela já tem um significado e uma aura muito grande. Tudo isso, além de ser um show beneficente e de termos outros grandes artistas ao nosso lado, coloca mais ‘fervura’ nesse show! Pra gente, com certeza terá um sabor especial!”, diz Nasi.

Apesar de ser a estreia do Ira! na Pedreira, Curitiba está muito viva na memória de Nasi porque já proporcionou alguns momentos históricos na carreira da banda. Um deles aconteceu em 1988 no ginásio do Círculo Militar, na festa de dois anos da rádio Estação Primeira, batizada de “Rock na Estação”.

O lineup da noite tinha a dupla paulista Os Mulheres Negras, os curitibanos do Blindagem e os gaúchos do Defalla, do Nenhum de Nós e do Replicantes. Na ocasião, o Ira! estava escalado para fechar a noite, mas uma sequência de imprevistos, um mais maluco do que o outro, quase fez com que o show não acontecesse. “Para mim foi um show inesquecível! Nós entramos no palco já eram umas quatro ou cinco horas da manhã porque tínhamos tocado, se não me engano, em Poços de Caldas (MG). Na época, eu estava namorando a Marisa Monte e nós viemos em um avião pequeno porque não tinha tempo hábil para que viéssemos de outra forma”, relembra.

Até aí, tudo bem, só que as situações inusitadas começaram já no interior de Minas gerais. “Eu lembro que o meu irmão (Airton Valadão), que era e ainda é o empresário do Ira!, teve que dar o lugar dele para a Marisa porque ela estava viajando comigo e não cabia mais ninguém. Era ele ou a Marisa e eu não deixaria ela em Poços de Caldas para fazer esse show, né? (risos). Nós tocamos quase ao amanhecer, mas o público não arredou pé e foi realmente muito vibrante!”, complementa.

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A amizade com a Relespública

A ligação do grupo com a capital paranaense também envolve uma relação muito forte com a banda curitibana Relespública. Essa amizade vem desde o início do grupo, quando o Ira! “facilitava” a entrada de Fabio Elias (vocal e guitarra), Ricardo Bastos (baixo) e Emanuel Moon (bateria) nos shows. “Nós vimos a Relespública nascer. O Fabio ainda era menor de idade quando entrava escondido com a nossa permissão e a nossa ajuda na coxia dos shows do Ira! (risos). Isso acabou gerando essa parceria. Nós viramos uma espécie de padrinho para eles”, conta.

A amizade se transformou em colaborações, afinal, Nasi e Scandurra participam regularmente de shows da Relespública. O vocalista, inclusive, gravou o CD/DVD “MTV Apresenta”, lançado pela Relespública em 2006, cantando a música “A fumaça é melhor que o ar”. Já no CD “As Histórias São Iguais” (2003), também do grupo curitibano, Nasi cantou “Boatos de bar” e “A fumaça é melhor que o ar”.

Porém, apesar de todas as afinidades, ainda falta consumar essa relação com a gravação de um álbum em conjunto. “Nós já pensamos em fazer algumas coisas juntos. Eu acho que, mais cedo ou mais tarde, vai pintar!”, complementa.

A valorização de uma geração pioneira

O Rock’n’road vai reunir o Ira! e o Raimundos, duas bandas essenciais para o Rock brasileiro, além de Frejat (que fez parte da formação clássica do Barão Vermelho), e de Marcelo Falcão (que deu continuidade a esse legado da música nacional com o Rappa, nos anos 1990).

No ano passado, a Pedreira também foi palco do festival Prime Rock Brasil, que terá a segunda edição no dia 8 de dezembro. Esse revival que vem acontecendo no Brasil parece indicar uma volta às raízes e uma valorização dessa geração de artistas brasileiros que nem sempre recebe o reconhecimento que merece. “Eu espero realmente que a gente esteja vivendo um momento de valorização desses artistas que construíram um cenário tão importante a partir das décadas de 1980 e 1990 e que hoje fazem falta na pasmaceira que virou a maior parte da música mainstream brasileira”, diz.

O novo álbum

Desde a volta do Ira!, em 2014, os fãs criaram uma grande expectativa pelo lançamento de um novo álbum de inéditas, o que deve acontecer no ano que vem, pois o grupo está trabalhando no primeiro CD desde “Invisível DJ” (2007). “O Ira! Vive um momento muito especial. Estamos finalizando o disco novo e já devemos lançar uma música ainda neste ano”, conta.

O próprio Nasi vive a ansiedade do lançamento do primeiro single dessa nova fase, afinal, a canção não deixa de ser uma espécie de retomada de uma história tão rica criativamente. “Nós estamos finalizando as vozes e alguns overdubs e depois vamos mixar com o Apollo Nove. Ainda não temos o nome definido porque queremos guardar certo segredo. Por isso, não estamos tocando músicas novas ao vivo. Queremos escolher o primeiro single com cuidado para lançar nas próximas semanas e aí sim começar a mostrar uma ou duas músicas para, no ano que vem, sair com uma turnê cheia de novidades”, complementa.

Apesar de não contarem mais com a presença dos outros dois integrantes originais do Ira!, Ricardo Gaspa (baixo) e Andre Jung (bateria), Nasi acredita que a nova formação do grupo ainda tem muito a render. “Essa volta já teve um projeto muito bacana que foi o ‘Ira! Folk’. Eu acho que nós voltamos com muito conteúdo. Acredito que essa nova formação da banda é a melhor, em termos musicais. Todos estão muito unidos e entrosados para escrever novos capítulos na nossa carreira”, analisa.

Transparência

Uma das características mais marcantes da personalidade do vocalista do Ira! é a coragem para se expor. Foi assim, por exemplo, quando Nasi assumiu o interesse pelos scratches e incorporou essa nova tecnologia, para a época, no álbum “Psicoacústica” (1988).

Já no livro “A Ira de Nasi” (2014), o cantor abordou a luta contra as drogas e o álcool, além das desavenças com várias pessoas. Porém, o vocalista afirma que ainda tem muito a contar. “Tenho que confessar que algumas coisas eu não digo que escondi, mas eu não pude falar com tantos detalhes porque na época em que eu escrevi o livro eu ainda estava sob júdice em alguns processos de danos morais. Eu tinha até um processo de obrigação de não fazer, ou seja, um juiz proibiu que eu me manifestasse sobre algumas pessoas sob pena de uma multa bem alta. Então, algumas coisas eu não pude revelar totalmente por causa desses processos, só pude deixar pistas”, conta.

O livro foi escrito pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo, que também é autor do documentário “Você Não Sabe Quem Eu Sou” (2018), que retrata a vida de Nasi. Nos dois casos, a independência dos autores foi essencial para que o conteúdo final fosse o mais fiel possível a realidade. “Eu fiz questão de que os autores mergulhassem fundo nas contradições da minha pessoa, nas coisas que podem ter sido erradas ao olhar dos fãs ou de outras pessoas. Eu dei toda a independência a eles porque eu acho que um livro ou um documentário sobre um artista, para ser interessante, não pode ser chapa branca, senão ele vira um press release. Acho que esse é um dos motivos que fez com que o livro tivesse sucesso”, diz.

Com essa atitude, a personalidade do vocalista foi abordada de várias maneiras diferentes e sempre rendeu boas histórias. “A biografia não vendeu tanto porque é de uma editora pequena, a Belas Letras, mas teve muita repercussão. Ela foi capa dos principais jornais do Brasil. O documentário também foi selecionado para ser exibido em vários festivais musicais no país. Então, tudo isso faz parte da independência que os autores tiveram para ‘me desagradar’ e me expor das maneiras mais contraditórias possíveis. Eu acho que é assim que tem que ser”, finaliza Nasi.

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Serviço

Os ingressos para o festival Rock’n’road, que acontece no sábado (12) na Pedreira Paulo Leminski custam: Pista – R$ 210 (inteira) e R$ 110 (meia-entrada). Motoclubes Promocional – R$ 100 (valor único). Já está incluso o valor de R$ 10 de acréscimo por bilhete referente à taxa de administração Disk Ingressos.

A meia-entrada é válida para estudantes, pessoas acima de 60 anos, professores, doadores de sangue e portadores de necessidades especiais (PNE) e de câncer. Clientes Clube Prime e portadores do cartão fidelidade Disk Ingressos possuem 50% de desconto na compra de até dois ingressos por associado. É obrigatória a apresentação de documento previsto em lei que comprove a condição do beneficiário na compra do ingresso e na entrada do teatro.

Os bilhetes podem ser adquiridos no site Disk Ingressos, na loja da empresa no Shopping Palladium (de segunda a sexta, das 11h às 23h, aos sábados, das 10h às 22h, e aos domingos, das 14h às 20h), nos quiosques instalados nos shoppings Mueller e Estação (de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 14h às 20h), no Call Center pelo fone (41) 3315-0808 (de segunda a sexta, das 9h às 22h, e aos domingos, das 9h às 18h) e na bilheteria do Teatro Guaíra (de terça a sábado, das 12h às 21h).

Os portões serão abertos às 12h e os shows começam às 13h. A classificação etária é de 18 anos (de 16 a 18 anos o público entra acompanhado de um maior responsável. De 12 a 14 anos apenas com o pai, a mãe ou o responsável legal. A Pedreira Paulo Leminski fica na Rua João Gava, s/n, no Abranches.