Tony Bellotto fala sobre os 40 anos de “Cabeça Dinossauro”, uma das pedras fundamentais do Rock brasileiro

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Os Titãs se apresentam neste sábado (18), no Igloo Super Hall, em Curitiba  

O ano de 1986 foi um divisor de águas no Rock brasileiro, pois foram lançados diversos discos que se tornaram históricos e formataram muitas características essenciais que fariam parte de todo grande trabalho que seria ouvido nas décadas seguintes.

Dentro dessa lista de obras-primas estão “Vivendo e Não Aprendendo”, do Ira”, “Selvagem!”, dos Paralamas do Sucesso, e “Dois”, da Legião Urbana. “Foi um ano com uma característica meio cabalística, transcendental. Eu acho que isso tem a ver com a nossa geração, que surgiu no início dos anos 1980 e passou a maior parte da infância e da adolescência em uma ditadura horrenda, como são horrendas todas as ditaduras”, analisa o guitarrista dos Titãs, Tony Bellotto.

De maneira muito clara e direta, a imensa maioria das bandas que surgiram a partir de 1985, com o fim do regime militar no Brasil, retratou de alguma maneira os anos de chumbo e a esperança que cada cidadão carregava dentro de si, apostando em dias melhores. “Naquele momento de redemocratização, o discurso do Rock dessas bandas teve uma grande importância, o que a gente estava falando para um público da nossa idade ou mais jovem do que a gente. Não era um público exatamente de MPB, daquelas formas de música que eram mais populares e comerciais no Brasil, na época. Eu acho que o Rock brasileiro chegou como uma novidade, abrindo caminhos estéticos e políticos. Foi um ano realmente muito especial!”, complementa.

Porém, apesar da concorrência criativa extremamente alta, poucos discos conseguiram captar com tanta fúria a realidade do país, naquele momento, quanto “Cabeça Dinossauro” (1986), dos Titãs.

Afinal, quando esses trabalhos foram lançados, fazia somente um ano que o Brasil havia iniciado o processo de redemocratização, após 21 anos de ditadura militar nos quais as manifestações artísticas estiveram sob intensa censura.

Naquele momento, os Titãs contavam com a formação clássica que unia o talento de Arnaldo Antunes (vocal), Branco Mello (vocal), Paulo Miklos (vocal), Tony Bellotto (guitarra), Marcelo Fromer (guitarra), Nando Reis (baixo e vocal), Sérgio Britto (teclado e vocal) e Charles Gavin (bateria).

Indivualmente, eles eram oito mentes inquietas e incrivelmente criativas que necessitavam de uma forma de expressão e encontraram no trabalho juntos, integrando os Titãs, um canal perfeito para isso.

Por todo esse contexto, a relevância desse disco, que unia peso e letras absolutamente essenciais, não se perdeu e até ganhou ainda mais força nos últimos anos. “Esse álbum surgiu como um grito de desabafo após 21 anos de uma horrenda e execrável ditadura. Hoje, ele soa como um alerta em um momento no qual a nossa democracia começa a ficar ameaçada novamente, por causa dessa extrema direita fascista e golpista. É muito legal que ele soe como um grito de alerta e a gente continue muito atento a defender a nossa democracia”, diz.

Como todo trabalho artístico que consegue se manter atemporal e sobreviver às areias do tempo, atualmente, em pleno século XXI, “Cabeça Dinossauro” vem ganhando ainda mais força por causa da polarização política que se instalou não só no Brasil, mas em todo o mundo. “Imagino que, em qualquer momento da história, sempre haverá abuso de poder, violência policial ou exploração religiosa, pois são temas que transcendem os momentos, eles sempre existem. Alguns problemas, de 1986 para cá, até pioraram. Essa questão da Igreja se imiscuir na política e na educação, hoje em dia, é até muito mais forte do que era naquela época. Muita coisa que sobrou da ditadura, no modo de agir da polícia, ainda sobrevive até hoje”, analisa.

Outro fator que faz parte da química que sacramentou a imortalidade de “Cabeça Dinossauro” foi a maneira quase pura que os Titãs encontraram para transformar ideias em canções. “É interessante ver que esse disco ainda mantém a atualidade, mas a principal força dele não são exatamente os temas, as questões e instituições que ele questiona, mas a maneira como isso foi transformado em música. Ele não é um disco panfletário, por isso não ficou datado e eu acho que o grande mérito é esse cuidado que a gente teve com a parte artística”, complementa.

Para muitos fãs, “Cabeça Dinossauro” é o álbum que expressa melhor toda a multiplicidade criativa dos Titãs, pois tanto a composição das canções quanto a produção, que ficou a cargo de Liminha, com coprodução de Pena Schmidt e Vitor Farias, foi de um nível de excelência quase inatingível.

Porém, apesar da importância fundamental desse disco, é preciso ressaltar que o grupo também possui outros álbuns igualmente relevantes. “Ele é muito incensado, elogiado, e é claro que a gente se refere a ele como um suprassumo da nossa produção. Talvez seja o disco que vá ficar para o futuro. Porém, eu acho que essa efervecência criativa dos Titãs também apareceu de maneira muito forte em outros trabalhos. O ‘Õ Blésq Blom’ (1989) e o ‘Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas’ (1987) ou até os mais recentes, entre eles o ’12 Flores Amarelas’ (2018) e o ‘Nheengatu’ (2014), são álbuns que contêm essa força. Entretanto, nenhum conseguiu se encaixar tão bem em um momento, o disco certo na hora certa, como o ‘Cabeça Dinossauro’. Então, ele fica com o símbolo dessa efervescência criativa, mas a gente tem outros bons discos também”, reflete.

Letras que fazem o fã pensar

Os Titãs pertencem a uma geração de bandas do Rock brasileiro que valorizou e continua dando uma importância imensa às letras e à mensagem das músicas.

Na visão desses artistas, o texto não é algo que possa ser deixado de lado, pois cada composição faz o ouvinte pensar sobre o tema que está sendo abordado. “Eu acho que a geração do Rock brasileiro dos anos 1980 tinha uma preocupação muito grande com as letras e o conteúdo, mas nós, dos Titãs, especificamente, tínhamos uma preocupação muito especial porque as nossas referências eram anteriores ao Rock. Nós ouvíamos muita MPB, os compositores antigos de Samba, como Cartola e Nelson Sargento. Sempre tivemos a preocupação de ser claros nas letras, de trabalhar até que elas ficassem da maneira certa, de deixá-las muito claras e, às vezes, quando não eram para ficar claras, que não ficassem, mas sempre com um cuidado muito grande. Realmente, essa é uma virtude nossa”, conta.

Em “Cabeça Dinossauro”, por exemplo, os Titãs falaram de Igreja, polícia, família e política de maneira absolutamente magistral, transformando raiva em poesia, indignação em palavras e revolta em grandes sucessos.

Quatro década depois, algumas dessas músicas não eram tocadas pela banda, ao vivo, há muitos anos. Por isso, revisitá-las nos ensaios, musical e vocalmente, foi um processo muito trabalhoso, mas que trouxe à memória dos integrantes alguns dos melhores momentos da trajetória do grupo. “Montar esse show foi muito prazeroso, pois revivemos algumas que não tocávamos há muito tempo. Entretanto, mesmo as canções que a gente sempre teve que tocar nos shows porque são grandes hits, como ‘Homem Primata’ e ‘Bichos Escrotos’, nós ouvimos com mais atenção para tentar reproduzir a gravação original da maneira mais fiel possível. Foi um trabalho muito mobilizador no qual nós pudemos rever as características do nosso estilo, essa coisa dos vocais gritados e do som cru e pesado”, explica.

O nível de dedicação foi tão grande que, para as apresentações, os Titãs contarão com três guitarristas no palco para que o peso não se dissipe em nenhum momento da execução das músicas. “Nós até contratamos um guitarrista para essa turnê específica, o Alexandre de Orio, para que o show ficasse fiel ao disco. Na segunda parte da apresentação (na qual a banda toca faixas de outros álbuns), nós também escolhemos músicas do nosso repertório que são mais adequadas a esse peso e crueza, a esse questionamento do ‘Cabeça Dinossauro’. É um show muito interessante e foi divertido montá-lo”, diz.

A escolha parece certeira, afinal, De Orio fez parte da banda paulista Claustrofobia, uma das mais tradicionais do Heavy Metal brasileiro. Ou seja, peso não vai faltar.

O show na capital paranaense será uma oportunidade sensacional, principalmente para os fãs mais jovens, que não eram nascidos na época do lançamento do álbum, mas poderão sentir todo o peso histórico que essas composições carregam. “Para nós, é uma glória ver adolescentes e até pré-adolescentes curtindo músicas que foram compostas e gravadas até antes de eles nascerem. É muito legal ver essa capacidade que a nossa música tem de se relacionar com o público mais jovem. Sentimos que as músicas não envelheceram, que elas têm uma capacidade permanente de emocionar e tocar as pessoas. Isso é muito bom!”, diz.

A relação dos Titãs com a capital paranaense, aliás, vem desde os anos 1980. Em 1993, por exemplo, a banda fez um dos shows mais marcantes da história da Pedreira Paulo Leminski.

Naquela ocasião, no aniversário de 300 anos de Curitiba, os Titãs se uniram ao Barão Vermelho e aos Paralamas do Sucesso para realizar uma apresentação lembrada até hoje. “A Pedreira é um lugar fantástico, um ponto mágico do Rock e do showbizz brasileiro! Eu lembro muito bem desse show, foi um grande festival, muito animado, com as bandas se encontrando no hotel e depois nos bastidores, descendo aquele elevadorzinho. É uma emoção tocar na Pedreira, é um lugar lindo, um dos mais bonitos do mundo para se fazer um show!”, conta.

Desde essa época, toda turnê dos Titãs passa por Curitiba, o que construiu uma relação muito forte com os fãs, fazendo com que eles acompanhem o grupo até hoje. “A gente tem uma conexão muito especial com o público curitibano. Temos amigos muito próximos há muitos anos. Lembro do nosso convívio com o Paulo Leminski, esse grande poeta curitibano que era nosso chapa, um admirador da música que a gente fazia, assim como nós sempre admiramos demais a poesia e as músicas dele”, finaliza.

Tony Bellotto (guitarra e vocal), Branco Mello (baixo e vocal) e Sérgio Britto (teclado e vocal), acompanhados por Beto Lee (guitarra), Alexandre de Orio (guitarra) e Mario Fabre (bateria), se apresentam neste sábado (18), no Igloo Super Hall, em Curitiba, justamente para celebrar os 40 anos de “Cabeça Dinossauro”.

O show tem realização local da Prime e nacional da 30e, com apresentação do Itaú Unibanco.

O espetáculo tem direção de Otávio Juliano, profissional renomado que também assinou o show “Titãs Encontro” e trabalhou com nomes importantes da música brasileira, entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Os ingressos custam a partir de R$ 87,50 + taxa de conveniência (pista, meia entrada) e podem ser adquiridos na plataforma Eventim.

A meia-entrada é válida para estudantes, pessoas acima de 60 anos, professores, doadores de sangue, pessoas com deficiência (PCD) e de câncer.

Ingresso Social – Doadores de 1kg de alimento não perecível possuem 40% de desconto sobre o valor da inteira.

A entrega será feita na entrada do evento e as doações serão recebidas por entidades específicas a serem cadastradas e definidas. Promoções não cumulativas com descontos previstos por Lei. 

A casa abre às 19h e o show começa às 21h. A classificação etária é de 16 anos. Abaixo dessa idade, os fãs só entram se estiverem acompanhados dos pais ou responsável legal.

O Igloo Super Hall fica na Rua Dino Bertoldi, 740, no Tarumã.

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