Titãs revivem “Cabeça Dinossauro” e mostram o quanto esse álbum se mantém atual
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O grupo se apresentou nesse sábado (18), no Igloo Super Hall, em Curitiba
Houve um tempo no qual a ferocidade da parte instrumental das músicas das bandas de Rock brasileiras vinha invariavelmente acompanhada de boas letras que faziam o fã refletir sobre diversas questões, tanto sociais quanto pessoais.
Entre tantos grupos que construíram os alicerces do estilo, no Brasil, poucos souberam fundir tão bem essas duas partes, por vezes antagônicas, quanto os Titãs. “Eu acho que isso tem a ver com a nossa geração, que surgiu no início dos anos 1980 e passou a maior parte da infância e da adolescência em uma ditadura horrenda, como são horrendas todas as ditaduras”, analisa o guitarrista Tony Bellotto, na entrevista exclusiva que concedeu ao Cwb Live (leia neste link).
Nesse sábado (18), com realização local da Prime, realização nacional da 30e e apresentação do Itaú Unibanco, o grupo se apresentou no Igloo Super Hall, em Curitiba, como parte da turnê que celebra os 40 anos do álbum “Cabeça Dinossauro” (1986).
O disco, um exemplo perfeito dessa conexão essencial entre texto e riffs, foi lançado apenas um ano após o início do processo de redemocratização do Brasil.
Por isso, ele nasceu carregado de uma fúria que esteve encarcerada no peito dos jovens brasileiros durante mais de duas décadas.
Aliás, é possível estabelecer um grande paralelo entre esse show de comemoração e o fim dos anos de chumbo, quando as liberdades individuais finalmente se sobrepuseram ao autoritarismo.
Afinal, logo no primeiro ato do espetáculo, a banda fez questão de exibir no telão o documento que evidencia o que a censura brasileira achava de “Bichos Escrotos”, em uma análise conduzida pelo temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

A face do destruidor
Tony Bellotto (guitarra e vocal), Branco Mello (baixo e vocal) e Sérgio Britto (teclado e vocal), acompanhados por Beto Lee (guitarra), Alexandre de Orio (guitarra) e Mario Fabre (bateria), abriram o show com a faixa-título do álbum, seguida por “AA UU” e “Igreja”.
Ao vivo, um detalhe chamou a atenção do público: a banda decidiu convidar o guitarrista Alexandre de Orio (ex-Claustrofobia) para fazer parte da turnê, justamente para que o peso das canções de “Cabeça Dinossauro” se mantivesse o mais fiel possível à gravação.
Outra questão que ajudou a compor o cenário da noite foi a camiseta do álbum “Titanomaquia” (1993) que estava sendo usada por Branco, em outra referência direta à visceralidade que os Titãs sempre carregaram nesse quase meio século de trajetória artística.
Durante a apresentação, a conexão dos fãs com a banda foi impressionante, com o público saboreando cada momento das canções como se fosse o último. “Os Titãs estão na lista de responsáveis por eu gostar tanto de Rock’n roll! Esse show traz memórias de tantas coisas legais da vida. Acho que foi a primeira oportunidade para nossa geração mostrar que não estava satisfeita e que, por meio da música pesada, ia dizer tudo o que pensa. Após 40 anos, o show segue intenso, forte, e as letras das músicas seguem valendo até hoje. É impressionante!”, elogia o jornalista Marçal Jordan.
Britto, inclusive, elogiou a capital paranaense em um post no Instagram neste domingo (19). “Temos aqui, talvez, o público mais fiel e intenso dos últimos dez anos. A nossa relação com a cidade vem de longa data e já vivemos momentos incríveis, mas com certeza a noite de ontem vai ficar para sempre nos nossos corações”, comentou.
Após tocarem na íntegra o álbum “Cabeça Dinossauro”, com uma execução extremamente fiel às faixas originais, os Titãs brindaram o público com algumas músicas que raramente fazem parte dos setlists do grupo, entre elas “Anjo Exterminador”, “Nem Sempre Se Pode Ser Deus” e “Armas Pra Lutar”.
“Lugar Nenhum” encerrou a primeira parte do show. Na sequência, a banda se retirou rapidamente do palco, voltando para finalizar com “Desordem” e “Flores”.
A turnê “Cabeça Dinossauro 40 Anos” é muito mais do que uma volta a um grande álbum e a consolidação dos Titãs como um dos principais nomes do Rock nacional.
Ela é uma aula de história por meio da qual, principalmente, os fãs mais jovens, que não viveram a ditadura ou os últimos suspiros do regime, podem receber um intensivo de uma hora e meia e mergulhar profundamente nesse período.
Além de entreter, a música também pode atuar como um instrumento de reflexão e, muitas vezes, abrir os olhos do fã para situações que demandam um cuidado cada vez maior por parte da sociedade.
Nessa linha de pensamento, há 44 anos, os Titãs vêm fazendo a sua parte e bradando o que deve ser dito com aquela mesma energia que o grupo tinha em 1986.
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