Iron Maiden e Curitiba: uma sinergia perfeita

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O show na Arena da Baixada reuniu mais de 40 mil pessoas

Existem bandas que qualquer fã de boa música precisa assistir ao vivo ao menos uma vez na vida, em função de diversos motivos.

Algumas criaram músicas que são verdadeiras obras-primas, outras possuem integrantes que estabelecem uma conexão fortíssima com os fãs.

No caso da banda britânica Iron Maiden, que se apresentou na última quarta-feira (28), na Arena da Baixada, em Curitiba, todos esses fatores se juntam para criar um ambiente absolutamente único.

Up the irons!

Perto do horário do início do show, enquanto Bruce Dickinson (vocal), Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers (guitarras), Steve Harris (baixo) e Simon Dawson (bateria) se ajeitavam no palco, os P.A.s tocavam “Doctor, doctor”, do UFO.

Pouco depois, aos primeiros acordes “Murders in the rue morgue”, as mais de 40 mil pessoas que lotavam o estádio do Athletico Paranaense para o último show da turnê “Run For Your Lives” no Brasil receberam a banda com a paixão de sempre.

Em “Killers”, Eddie fez a primeira aparição da noite, caminhando em meio a banda caracterizado como o assassino que aparece na capa do álbum lançado em 1981.

Logo de cara, o telão que a banda decidiu utilizar nos últimos anos impressionou o público. O impacto foi ainda mais forte porque, tradicionalmente, o grupo sempre usou os banners gigantescos que eram trocados a cada música como se fossem “cortinas”.

Com a adoção da nova tecnologia, as músicas ganharam ainda mais teatralidade, uma característica que sempre caminhou ao lado do Iron nos shows, pois as próprias letras de Dickinson (formado em História) fazem com que o ouvinte preste atenção na narrativa que está sendo desenvolvida.

Em “Seventh son of a Seventh Son”, por exemplo, a capa do álbum exibida no telão, com o esqueleto de Eddie pairando sobre icebergs no mar, compôs um cenário fantástico.

Essa é uma das músicas que mais exigem potência da voz de Bruce, pois é longa e com linhas melódicas em tons bem altos.

Outro desses momentos mágicos foi “Phantom of the opera”, quando a entrada de um teatro macabro foi exibido atrás da banda.

Em “Rime of the ancient mariner”, o vocalista brincou com os fãs dizendo que eles estavam seguros porque o teto retrátil da Arena estava fechado, mas que, na saída, o público deveria tomar cuidado com o albatroz mencionado na música.

Uma das canções mais impactantes do show foi “Powerslave”, faixa título do álbum lançado em 1984 que está entre os principais trabalhos do Iron.

Na letra, Bruce conta a história de um faraó que não queria se submeter à morte porque a crença egípcia afirmava que ele era um deus.

No telão, a capa do disco, uma gigantesca pirâmide com a estátua de Eddie sendo protegida por dois deuses Anúbis (o senhor do submundo e guardião das tumbas do Egito) criada pelo genial Derek Riggs, bateu fundo no coração dos fãs.

The air raid siren

Aliás, não há como não falar de Bruce Dickinson, pois durante toda a carreira do Iron, a banda não baixou o tom das músicas em nenhum momento.

Até hoje, o vocalista canta as canções exatamente como elas foram gravadas e sem “mendigar” notas, ou seja, sem enganar ninguém, algo muito comum no mundo do showbizz do século XXI.

Pouquíssimos frontmans na história do rock conseguiram essa proeza de passar dos 60 anos ainda cantando com essa qualidade, entre eles os geniais Glenn Hughes e David Coverdale (que se aposentaram recentemente).

Dickinson continua fazendo jus ao apelido “the air raid siren”, a “sirene de ataque aéreo”, dado a ele justamente em função da potência vocal.

Guitarras para todos os gostos

Já o trio de guitarristas do Iron Maiden continua impressionando os fãs porque cada um deles tem um estilo próprio de tocar.

Dave Murray é o mais clássico dos três, executando os solos sempre com muita elegância e discrição.

Adrian Smith, companheiro de Murray na banda desde 1981, alia uma abordagem também clássica, mas com uma pegada mais agressiva.

Janick Gers, que faz parte do grupo desde 1991, é o mais “ousado” tanto na execução das músicas quanto na performance, sempre fazendo acrobacias com a guitarra.

Junte a eles o baixista Steve Harris, criador da banda e mentor da sonoridade do Iron, e você tem um dos quartetos de cordas mais poderosos da história da música.

Simon Dawson

Um dos alvos da atenção dos fãs durante o show foi o baterista Simon Dawson. Afinal, ele está “substituindo” Nicko McBrain, que ficou a frente (ou atrás) da bateria do Iron durante 42 dos 50 anos de trajetória do grupo.

Nesse ponto, é preciso fazer algumas considerações.

Em 2024, quando Nicko tomou a decisão de se aposentar em função de um AVC que limitou a sua performance na execução das músicas, Dawson foi escolhido para ocupar o cargo.

A decisão, tomada principalmente por Steve Harris, não pode ser contestada pois Simon é um bom músico, afinal, ele não seria convidado a entrar em uma banda desse porte se não tivesse as qualidades técnicas necessárias para assumir o posto.

O baterista faz parte do grupo paralelo de Harris, o British Lion, e já integrou diversos projetos de menor repercussão, entre eles o The Outfield e o Dirty Deeds.

Porém, ao vivo com o Iron, a impressão é que Dawson está fora de sintonia com os outros integrantes e com a própria obra musical da banda.

Em muitos momentos do show, era nítido que faltava uma pegada mais contundente para fazer a energia crescer nos momentos em que as músicas pediam isso.

Por causa dessa característica, até canções clássicas como “The trooper” pareciam soar mais arrastadas, sem aquele punch que Nicko colocava.

Um comunidade dentro do heavy metal

Após “Iron maiden”, a banda se retirou rapidamente do palco. “Que lugar foda pra gente fazer o nosso último show no Brasil!”, disse o vocalista visivelmente emocionado.

Pouco depois, o brilhante discurso do primeiro- ministro britânico Winston Churchill convocando os cidadãos ingleses a defender o país durante o período mais sangrento da Segunda Guerra Mundial começou a soar nos alto-falantes.

Na sequência, a Arena da Baixada virou palco da “batalha da Bretanha”, com os Stuka alemães enfrentando os Spitfires ingleses em um dos momentos que definiram o destino do maior conflito que a humanidade já presenciou.

Na parte final do show, com a Baixada iluminada apenas pelas luzes dos celulares, Bruce surgiu segurando uma lanterna verde em frente a uma grande lua cheia para cantar “Fear of the dark”, levando os fãs à loucura.

Assistir a um show do Iron Maiden é uma experiência que vai muito além da música.

É uma paixão transmitida de pai para filho, mostrando que o público que frequenta os shows do grupo é realmente uma comunidade distinta dentro do heavy metal. É diferente, intenso e, acima de tudo, verdadeiro.

A parte triste é que, após cinco décadas de estrada, todos esses momentos podem estar chegando ao fim, os integrantes da banda estão beirando os 70 anos (Harris já chegou a essa marca).

Para uma atividade que inclui longas e cansativas turnês por todo o mundo, essa realidade física acaba pesando violentamente em algum momento.

Por isso, quando a banda encerrou o show com “Wasted years”, boa parte dos fãs sentiu a mensagem da música de maneira bem forte. “Não desperdice o seu tempo sempre procurando por aqueles anos perdidos. Cabeça erguida, defenda seus pensamentos e perceba que você está vivendo nos anos dourados”, diz Bruce.

Estamos e tivemos a chance de ver alguns dos maiores artistas que caminharam sob a terra.

Aos poucos, esses gênios estão se retirando dos palcos e virando somente uma bela e emocionante lembrança para aqueles que tiverem a honra de presenciar o que eles eram capazes de fazer.

Alter Bridge

A abertura da noite coube à banda estadunidense Alter Bridge e sua mistura de hard rock, nu metal, grunge e metal alternativo.

Myles Kennedy (vocal e guitarra), Mark Tremonti (guitarra), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria) iniciaram o show com “Silent divide”, faixa do mais recente álbum do AI, autointitulado, lançado neste ano.

Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi “Blackbird”, canção que reflete muito bem a proposta do grupo, com longas variações melódicas e o grande alcance vocal de Myles.

Em 2017, quando o AI abriu o show do The Cult na Live Curitiba, a banda ainda não era tão conhecida no Brasil. 

Na verdade, o público Myles é mais associado ao trabalho como vocalista do projeto paralelo do guitarrista do Guns N’ Roses, Slash.

Entretanto, na Baixada, já foi possível encontrar muitos fãs usando a camiseta da banda e conectadas com a proposta artística do grupo.

Apesar de fazer um show curto, encerrado com a sortuda “Isolation”, o Alter Bridge deixou uma boa impressão para quem não acompanha tão de perto o trabalho da banda. 

Myles volta a se apresentar em Curitiba no dia 11 de abril com o Slash featuring Myles Kennedy & The Conspirators, na Live Curitiba.

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