Texto: Marcos Anubis
Revisão e fotos: Pri Oliveira

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Começo dos anos 1990. Na esteira do sucesso do Nirvana e do Grunge, as rádios rock da época, entre elas a saudosa Estação Primeira, em Curitiba, começam a levar ao ar outras bandas que se associavam ao estilo. Um desses grupos também vinha de Seattle, o berço desse estilo, e tinha acabado de lançar um álbum que se tornaria uma das pérolas da época.

“Badmotorfinger” (1991), do Soundgarden, tinha a ferocidade do Grunge, mas de forma nenhuma se limitava a isso. Kim Thayil (guitarra), Ben Shepherd (baixo) e Matt Cameron (bateria) eram excelentes músicos e incorporavam várias influências em suas composições, do Heavy Metal à psicodelia.

Mas o que chamava ainda mais a atenção no Soundgarden era o seu vocalista: dono de um alcance vocal impressionante, Chris Cornell se destacava entre todos os vários bons cantores da época, como por exemplo, o frontman do Alice in Chains, Layne Staley.

Nessa sexta-feira (9), Chris Cornell se apresentou na Ópera de Arame e reviveu alguns momentos fantásticos de sua carreira. O setlist do show, que faz parte da “Higher Truth Tour”, teve músicas de sua carreira solo e das três principais bandas pelas quais ele passou: Soundgarden, Temple of the Dog e Audioslave.

Com a Ópera de Arame lotada, Chris abriu a apresentação com “Before we disappear”, canção de seu mais recente álbum, “Higher Truth” (2015). Durante várias músicas do show, ele foi acompanhado pelo músico americano Bryan Gibson no violoncelo, teclado, violão e bandolim.

Uma das surpresas para o público foi a bela versão de “Nothing compares 2 u”, clássico do cantor, músico e compositor Prince que também foi gravado pela cantora irlandesa Sinéad O’Connor. Outra cover muito bem feita foi “The times they are a-changin’” de Bob Dylan, em que Chris tocou violão e harmônica.

Durante as mais de duas horas do show, Chris se mostrou muito simpático com os fãs. Em algumas ocasiões, inclusive, ele chegou a ir até a beira do palco para cumprimentar o público que estava nas primeiras fileiras da Ópera.

Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi “Black hole sun”, que talvez seja a música mais conhecida do Soundgarden. Destaque também para outras duas canções de sua ex-banda: “Fell on black days” e “Blow up the outside”.

O setlist também teve músicas do Audioslave, entre elas “Doesn’t remind me”, “Wide Awake” e a belíssima “Like a stone”. Além dos vocais de Chris, o super-grupo ainda era formado pela cozinha do Rage Against the Machine: Tom Morello (guitarra), Tim Commerford (baixo) e Brad Wilk (bateria). Entre 2001 e 2007 o Audioslave lançou três álbuns.

Peso e melodia

Para criar o setlist da “Higher Truth Tour”, Chris Cornell soube “transformar” muito bem as canções para o formato acústico. Afinal, músicas que foram compostas baseadas no peso das guitarras não são simples de serem tocadas apenas no violão. “Rusty cage”, por exemplo, uma das faixas mais pesadas do Soungarden, virou quase um Western.

Um momento inusitado do show aconteceu na última música antes do bis, na qual Chris juntou duas composições homônimas: a base de “One”, do U2, com a letra da versão do Metallica.

No final, ele saiu brevemente do palco e, na volta, presenteou o público com uma das faixas mais emblemáticas dos anos 1990. “Hunger Strike”, do Temple of the Dog, é uma daquelas músicas que permanecem cultuadas mesmo após quase 30 anos de seu lançamento.

O supergrupo era formado por Chris Cornell e Eddie Vedder (vocais), Mike McCready e Stone Gossard (guitarras), Jeff Ament (baixo) e Matt Cameron (bateria). Todos eram integrantes do Pearl Jam e do Soundgarden.

A banda lançou apenas um álbum, “Temple of the Dog” (1991), mas foi o suficiente para gravar o seu nome na história da música. Na época, a combinação do vocal grave de Eddie Vedder com a voz poderosa e aguda de Chris não poderia ter dado mais certo.

Durante a execução da música, em um momento emocionante de interação com seu ídolo, o público fez a parte de Eddie Vedder cantando o refrão “but I’m growing hungry”, recebendo a resposta aguda de Chris.

“Higher truth” encerrou a apresentação. O show foi uma oportunidade única de ver ao vivo alguns clássicos imortais. Afinal, Chris Cornell é um dos poucos sobreviventes de uma geração que promoveu a última mudança verdadeira no mundo da música.

Muitos músicos e vocalistas daquela época se foram, entre eles Kurt Cobain, Layne Staley e, recentemente, Scott Weiland. Porém, a alma de um estilo que quebrou as regras da indústria fonográfica e também mudou radicalmente o comportamento e a forma de se vestir dos jovens da época, ainda sobrevive.

Veja duas músicas do show: “Black hole sun” e “Hunger Strike”.