Texto: Marcos Anubis
Fotos e revisão: Pri Oliveira

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O Brasil é um país que não tem o costume de valorizar as pessoas que contribuem de alguma maneira para o fortalecimento da cultura nacional. Isso acontece em todos os segmentos artísticos, esportivos e sociais. Na música, não é diferente.

Max e Iggor Cavalera fazem parte de uma lista de brasileiros que desbravaram o mundo. Com o Sepultura, eles quebraram barreiras que pareciam indestrutíveis para apresentar o Heavy Metal brasileiro para o planeta. Hoje, mais de 30 anos depois, os dois ainda continuam levando a cultura do Brasil a todos os cantos do globo.

Nessa quinta-feira (13) na ReConcert, em Curitiba, para a alegria dos fãs que não esperavam que esse momento ainda fosse possível, Max e Iggor reviveram dois álbuns clássicos do Sepultura: “Beneath the Remains” (1989) e “Arise” (1991). “Esses dois discos representam a nossa ascensão e mudança de rumo, a nossa maturidade enquanto banda. Foi um momento mágico da nossa vida e do pessoal que se tornou fã da gente nessa época. Nesse período, nós descobrimos o mundo, viajamos, fizemos nossas primeiras turnês e participamos de nossos primeiros festivais. Foi uma época de muito crescimento em nossas vidas e, por isso tudo, nós celebramos esses dois álbuns nessa turnê. Eu não sei se eles se completam, mas eles mostram exatamente a nossa evolução em vários sentidos. São o alicerce da nossa carreira internacional. Temos muito orgulho de todos os nossos álbuns desde o ‘Bestial Devastation’, mas esses representam um momento especial”, disse Max na entrevista exclusiva que ele concedeu ao Cwb Live antes do show.

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O show “Max & Iggor Cavalera’s Return to Beneath Arise”, acima de tudo, é um grande reencontro de dois músicos fundamentais na história do Heavy Metal brasileiro. “Essa volta com o meu irmão me traz para as raízes, para aquilo que a gente começou a fazer, aquilo que a gente sabe de melhor. Eu me sinto muito bem! A nossa irmandade está no auge hoje em dia e eu acho isso do caralho! Eu também adoro tocar com o meu filho Zyon no Soulfly, toquei com um monte de gente ao longo desses anos, tenho o projeto Killer be Killed com o pessoal do Mastodon e do The Dellinger Escape Plan, mas tocar com o Iggor é muito visceral e emocional pra mim”, afirma. Leia neste link a entrevista na íntegra.

No palco, o que se viu foi a confirmação disso, pois os dois tocaram com uma fúria impressionante. Max e Iggor, muito bem acompanhados por Marc Rizzo (guitarra) e Mike Leon (baixo), ambos do Soulfly, abriram o show com “Beneath the remains” e “Inner self”.Pela reação dosfãs, era possível perceber o quanto essas duas músicas ainda continuam fortes e atuais.

De forma ensandecida, o público não parou de agitar um minuto sequer e abriu inúmeras rodas de mosh durante a apresentação. Toda essa energia chegou até a banda, porque era nítido o entusiasmo de todos os músicos em relação ao que viam em frente ao palco.

O principal fator que chama a atenção no Sepultura, e no Heavy Metal em geral, é a contundência do som. Porém, as letras do grupo também eram críticas diretas às características cada vez mais sombrias da humanidade. “Mass hypnosis” é um belo exemplo disso. “O ódio corre pelas artérias. Hipnose em massa. Incerto em estar de volta. Eles te fazem se sentir tão bem. Tudo está obscurecido. Obedeça como um tolo”, canta Max.

Essa primeira parte do show ainda teve as músicas “Stronger than hate”, “Slaves of pain” e “Primitive future”.

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De Belo Horizonte para o mundo

Quando o Sepultura começou a chamar a atenção do mundo, no final da década de 1980, ninguém acreditava que alguma banda do Brasil pudesse sobreviver fora do país. Chegar a esse tipo de patamar era simplesmente inimaginável para qualquer artista brasileiro.

É preciso lembrar que, naquela época, as plataformas digitais não existiam. Ou seja, para chegar ao grande público, a banda precisava assinar contrato com uma gravadora importante no mercado fonográfico internacional.

Esse era o caminho a ser seguido, e quem não tivesse a competência ou a sorte de ser contratado por uma major, infelizmente, era carta fora do baralho. Esse foi o caso de muitas excelentes bandas brasileiras que não conseguiram um espaço maior.

O maior passo de todos foi dado pelo Sepultura que, após chamar a atenção fazendo parte do mítico selo mineiro Cogumelo, acabou chamando a atenção da gravadora norte-americana Roadrunner.

De volta a 1994

Muitos fãs que foram à ReConcert encararam o show como uma continuação da famosa apresentação do Sepultura em 1994, na Pedreira Paulo Leminski, ao lado do Viper, dos Raimundos e dos Ramones.

Naquele dia, quando o grupo mineiro pisou no palco, uma tempestade impressionante desabou sob Curitiba. A banda ainda tentou fazer o show, mas teve que encerrar a apresentação logo no início por causa dos raios que caíam na Pedreira.

Na época, a frustração dos fãs foi muito grande porque o Sepultura estava no auge da carreira e a expectativa era a de que aquele fosse um show inesquecível. Dois anos depois, pouco após o lançamento do revolucionário “Roots”, Max acabaria saindo do Sepultura, e os curitibanos nunca mais tiveram a oportunidade de ver a formação clássica do grupo.

No show na ReConcert, muitos fãs ainda lembravam daquele dia na Pedreira, há 25 anos. “O show me pareceu uma continuação nostálgica daquele de 1994, quando o famoso temporal fez com que o Sepultura interrompesse o concerto. Hoje foi uma noite para relembrar a adolescência e brindar com os caras que levaram o Metal brasileiro mais longe!”, diz o tatuador, guitarrista e vocalista Ulisses “Mano” Rodrigues, integrante das bandas Necrotério e do Grimpha.“O Sepultura foi a banda que eu mais ouvi na adolescência, e esse show de 1994 foi o primeiro que eu vi na vida. A apresentação de hoje superou todas as minhas expectativas! Não teve firulas e nem efeitos especiais, foi pancada do início ao fim. O Max e o Iggor contagiaram a todos com muito profissionalismo. Foi um dos melhores shows que eu já vi!”, diz a professora de inglês Luciane Marchi.

De maneira geral, a sinergia entre a banda e o público foi realmente especial. “Percebi muita euforia e entusiasmo por parte do público e me senti literalmente em uma volta ao tempo, pois eu escutava esses discos diariamente. Vi muita gente emocionada, cantando e tocando suas guitarras e baterias imaginárias. A noite foi espetacular pela atmosfera entre a banda e o público!”, diz o vocalista da banda curitibana Choke, Ottavio Lourenço.

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Iggor Cavalera: técnica, violência e garra

Iggor está na seleta lista que reúne os maiores bateristas do mundo, entre eles, Dave Lombardo, Mick Harris e Nicko McBrain. Mesmo assim, é impossível não ficar impressionado com a técnica e a violência com que ele toca bateria.

Usando uma técnica que, aliás, foi desenvolvida de maneira autodidata, Iggor utiliza elementos do Trash, do Death e de outros subgêneros do Heavy Metal. Porém, o que faz com que ele se diferencie ainda mais é a pegada percussiva que só os músicos brasileiros possuem. Entre os exemplos mais marcantes do “estilo Iggor” está a bateria de “Refuse/Resist”.

Essa versatilidade rítmica faz com que Iggor seja capaz de tocar qualquer estilo. Uma prova disso é a participação do baterista na gravação da música “Dois olhos negros” no especial “Acústico MTV”, lançado por Lenine em 2006.

Já Max Cavalera é um minimalista, no sentido de ser um músico que sempre procurou encaixar os riffs de maneira exata com a bateria e a linha de voz. Nada de solos ou harmonias exageradas. Na verdade, a maneira com que Max toca guitarra chega a ser percussiva, pois ele procura casar o ritmo dos riffs com as levadas de bateria de Iggor. Nessa linha, Max criou riffs fantásticos, como o de “Roots bloody roots” e de “Attitude”.

Na sequência do show, na parte dedicada ao álbum “Arise”,Max incluiu um trecho de “War pigs”, do Black Sabbath, no meio de “Alterate state”, e fez o público cantar com ele.Depois, veio a versão sensacional que o Sepultura fez para “Orgasmatron”, do Motörhead. Entusiasmado, Max emendou “Ace of spades”, outro clássico de Lemmy Kilmister e companhia.

Finalizada a fase dos álbuns “Beneath the Remains” e “Arise”, a banda se retirou rapidamente do palco e voltou para tocar outras três músicas da carreira do Sepultura: a fantástica “Troops of doom”, do álbum “Morbid Visions” (1993), e “Refuse/Resist”, do álbum “Chaos A.D.” (1993), com Max comandando uma grande Wall of Death no meio do público, que foi apresentado por ele como “do lado direito os canibais e do lado esquerdo os assassinos”

Na sequência, após a versão que o Sepultura gravou para “Polícia”, dos Titãs, mais uma breve saída do palco. No encerramento do show a banda apresentou “Roots bloody roots”, “Hear nothing see nothing say nothing”, do Discharge, e um medley com “Beneath the remains”, “Arise” (com uma pegada mais cadenciada, voltada para o Doom Metal) e “Dead embryonic cells”.

Confira a música “Arise”, gravada ao vivo no show na ReConcert. Veja também o álbum de fotos da apresentação.

Max and Iggor Return Beneath Arise Cavalera - ReConcert - 13/06/2019

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Macumbazilla

A primeira banda a pisar no palco foi o Macumbazilla, de Curitiba. André Nisgoski (guitarra e vocal), Carlos Piu (baixo) e Júlio Goss (bateria) abriram o show com “Blood, beer & broken teeth” (que teve a participação da gaitista Indiara Sfair), Blondie phantom” e “Colossus”.

O som do Macumbazilla tem uma pegada bem voltada para o Stoner Metal e, ao vivo, as músicas soam ainda mais pesadas. No setlist do show, o grupo aproveitou para apresentar algumas das 15 músicas inéditas que farão parte do novo álbum da banda, que já está sendo gravado, mas ainda não tem data de lançamento, entre elas, “Hellhounds” e “The enemy”.

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“The ritual” encerrou o show. “É sempre um prazer apresentar o nosso som para um público novo. Foi um show memorável, os organizadores do evento estão de parabéns pela produção impecável e o público foi espetacular! Tivemos a oportunidade de conversar com várias pessoas depois do show, sem contar que dividir o palco com essas duas lendas do Metal nacional é o desejo natural de todo músico de som pesado”, diz André.

O Macumbazilla se apresenta no dia 13 de julho na 2ª edição do Festival Crossroads dia Mundial do Rock, que será realizado na Usina 5. Confira a música “Colossus”, gravada ao vivo no show na ReConcert. Veja também o álbum de fotos da apresentação.

Macumbazilla - ReConcert - 13/06/2019krucipha1

Krucipha

Em seguida, vieram os também curitibanos do Krucipha, cujo som é influenciado diretamente pelo Sepultura. Fabiano Guolo (guitarra e vocal), Luis Ferraz (guitarra e e backing vocal), Khaoe Rocha (baixo e backing vocal), Nicholas Pedroso (percussão) e Felipe Nester (bateria) abriram o show com “Indigenous self”, “Reason lost” e “F.O.M.O.”.

Durante a apresentação, o público se divertiu e valorizou o show do Krucipha, aplaudindo e gritando o nome do grupo, demonstrando um tipo de comportamento raríssimo na cena musical curitibana. O som do Krucipha segue a linha do Thrash Metal, mas a percussão de Nicholas Pedroso, ao mesmo tempo em que remete à criatividade de Iggor Cavalera na fase “Roots”, também dá um toque Industrial ao trabalho do grupo.

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Na parte final do show, a banda tocou um trecho de “Nothing to say”, do Angra, fazendo uma homenagem ao cantor Andre Matos, falecido no dia 8 de junho. “Afforddiction” encerrou o show. “Foi sensacional! Foi a segunda vez que abrimos um show dos caras, mas parecia que era a primeira. Foi um misto de orgulho com senso de responsabilidade e aquele frio na barriga. A organização foi bem bacana também. A galera do Crossroads e a equipe que estava lá foram muito profissionais. Nos sentimos respeitados pra caramba! Sentimos que tínhamos um espacinho ali e não éramos um estorvo, como infelizmente acontece quando você abre alguns shows desse porte”, fiz Fabiano Guolo.

Confira a música “Indigenous self”, gravada ao vivo no show na ReConcert. Veja também o álbum de fotos da apresentação.

Krucipha - ReConcert - 13/06/2019